Dia de Finados
Hoje é Dia de Finados.
Enquanto me dedico a teclar na produção deste texto, lá fora pessoas
se dirigem aos cemitérios, na peregrinação anual, que a mim parece
reduzir a cada ano; impressão talvez falsa, pois se não há grandes
grupos nas ruas, o número de veículos é maior. São homenagens de uns
aos que se foram, espécie de fuga aos problemas quotidianos para
outros, talvez passeio sem maiores compromissos com o além, ou, até
mesmo oportunidade de substituir por flores pedras eventualmente
lançadas em vida.
Longe de querer implicar
com costumes tradicionais ou criticar práticas e comportamento de
quem quer que seja, há muito deixei de ir aos cemitérios nesse dia,
o que talvez a muitos pareça falta de sentimentos cristãos e
desprezo à memória de entes queridos. Sem me preocupar com
interpretações terceiras, mesmo porque o pensamento é livre aos que
o têm em alta e dele sabem fazer uso, decido por tomar caminho
diverso, mas que leva, igualmente, a Roma, conforme diz o provérbio.
Desde que tomou
consciência de si, nos momentos cruciais e ainda sem obter
respostas, o homem tenta saber quem é, de onde veio e para onde vai.
E nessa busca se perde quanto às duas perguntas primeiras e toma
rumo duvidoso quanto à terceira, ao se prender à sepultura, mesmo
dizendo ali não estar a verdadeira essência do ser. A preocupação
excessiva com o que não mais demanda cuidados aguça a cobiça e faz a
opulência inescrupulosa, à custa da fragilidade ditada pelo
sofrimento e da vaidade inerente à natureza humana. E assim, haveres
necessários à manutenção da vida, entre os que sofrem com a perda,
se esvaem em volume superior às necessidades sensatas dos serviços
fúnebres. Renúncias e sacrifícios têm validade diante da vida em
risco, cabendo, a cada um dos mais próximos, quota proporcional à
sua capacidade, mas após a morte não tem sentido o que excede ao
necessário para que a matéria siga seu curso natural na
transformação. O que resta sobre a terra com esta se confundirá, ao
longo dos anos, independente do que deixe sobre ela, ou do que se
gaste até à sepultura. Não importa o que se pensa, o que se faça;
não importam discriminações e preconceitos; não importa a crença ou
descrença na divindade ou continuidade da vida além túmulo. Debaixo
do simples monte de terra e do luxuoso monumento em mármore a
matéria é a mesma em sua natureza!
Os vivos reclamam atenção
e é sobre eles que o mundo deve se concentrar, levando-se em conta
apenas a atualidade entre a concepção e a morte, na qual a interação
dos seres é essencial para a realização da espécie no contexto
universal. O que vale dos mortos para os vivos é a sua memória, seus
exemplos e obras cuja continuidade constitui a melhor homenagem,
somando-se o perdão pelas falhas e erros próprios do ser humano!
Felizmente, desapareceu o tétrico costume do luto, representado pela
roupa preta durante um ano, concomitante ao afastamento hipócrita
das alegrias mundanas. Só quem viveu os últimos dias daquela
esquisitice social pode dizer quanto mal fazia!
Entretanto, ainda há muito
do que se livrar! A vida deve ser comemorada a cada instante, e,
ocupar-se antecipadamente da própria morte, no que se refere aos
cuidados com os despojos, não é comportamento condizente com os
princípios do predomínio do espiritual sobre o material. É
desperdício de tempo, forças, recursos e desconsideração para com os
semelhantes, aos quais cabe o dever de dar sepultura aos restos
materiais de quem segue à frente para a grande viagem. Prepara-se
para morte, vivendo bem a vida; homenageiam-se melhor os mortos,
seguindo-lhe os bons exemplos e dando continuidade às suas obras.
Em relação ao corpo só
vale o que se faz entre o abrir e o fechar dos olhos para vida!