Com antecedência
ainda não se pode dizer onde e quando, precisamente, uma vez que
possibilidades fortes se espalham por todo o país, de dezembro a
fevereiro, período de fortes chuvas, grande movimentação de pessoas
em férias; tudo temperado com alto grau de irresponsabilidade
tupiniquim, do Zé Mané ao "granfinóide", setor privado e público. No
tempo e espaço ficam as dúvidas, mas certeza quanto a ocorrência de
tragédias e dramas humanos pode-se dizer que há, todos os anos, em
alto grau de comoção pública; só que neste ano o que ocorreu, ocorre
e deixará sequelas por muito tempo, superou tudo. Catástrofes
cinematográficas produzidas pela imaginação foram, de longe, batidas
pela realidade nua e cruel, que não discriminou classe social,
atingindo a todos indistintamente em diversos municípios serranos do
estado do Rio.
Falam em
desastre natural, mas na natureza não há desastre. Tudo que aí
ocorre está de acordo com suas próprias leis. Na natureza, tudo é
normal. Se a região não fosse habitada, ninguém falaria em desastre,
tendo como causa volume de chuvas acima da média. O fato seria
relatado sem alardes e poderia ser motivo de discussão, apenas em
círculos de estudos de fenômenos atmosféricos, climatológicos e
geológicos. Desastre dessa ordem existe quando o ser humano é vítima
de sua própria incúria ao se opor à natureza, cujas manifestações
são livres, muito mais do que aspira o homem, quando pensa em
liberdade para si. Então o desastre não é natural e sim provocado
pela ação humana, ainda que inconscientemente.
Pode-se imaginar
a angústia, o grau de desespero das pessoas diante das perdas, não
poucas, em vidas e patrimônio, dentro de seu ambiente devastado como
se alvo de ação bélica. Muitos, mais infelizes ainda, perderam
também o emprego junto com a empresa que lhes dava sustento por meio
do trabalho. Famílias inteiras desapareceram. Nem todos os corpos
serão resgatados. A geografia das localidades atingidas foi mudada
e, na vida das pessoas que ainda vivem o drama, nada será o mesmo
daqui para frente.
Mas por que tudo
isso aconteceu e acontece com certa frequência, no Brasil, nas
estações chuvosas? Por razões, que variam desde a pobreza impeditiva
na escolha de melhor local até a riqueza licenciosa, mediante o
jeitinho brasileiro e cumplicidade de (i)responsáveis, imóveis são
edificados, clandestinamente ou com aprovação oficial, de qualquer
modo e em qualquer lugar. São edificados à beira de cursos d’água,
na rota de boqueirões naturais por onde escoam enxurradas vindas das
montanhas, nas encostas destas, sobre esplanadas resultantes de
aterro não consolidado, e sob muitas outras condições desfavoráveis
à segurança. Contribui para isso a cultura nacional da esperteza, a
tendência para violar normas e regulamentos sob a omissão da
administração pública, que não fiscaliza, e o olho gordo político
que precisa dos votos e não quer confronto com irregulares.
A coroar todo o
processo insano de desafio à natureza está a falta de uma política
nacional, que contemple a fixação da população interiorana,
dando-lhe oportunidades de trabalho na localidade de origem e
melhores condições de vida; falta de uma política nacional de
prevenção de tragédias provocadas por intempéries; falta de controle
rígido sobre áreas de risco, delimitando-as e impedindo que sejam
ocupadas; falta de educação da população em defesa civil.
Até aqui, tanto
governo quanto a sociedade têm chorado sobre o sangue derramado e
mitigado dor e perda entre sobreviventes com paliativos, por meio de
campanhas populares, cujo produto, em parte, não escapa das ações de
corruptos. Nessas ocasiões de tragédia e comoção coletiva, legiões
de pessoas se veem tolhidas na ação de conduzir suas vidas e prover
seu próprio sustento, constrangidas sob o amparo de terceiros que,
de boa vontade acorrem de pontos diversos e no momento necessário.
Os sobreviventes sofrem pela perda de familiares e amigos, pela
perda do seu patrimônio e referências na comunidade, pela quebra em
sua autoestima e pelas incertezas de volta ao padrão de vida
anterior.
Mas, o mais
doloroso ainda não é o agora, será o depois, quando todo o esquema
de ajuda e socorro tiver sido desmontado e as vítimas tiverem que
retomar o curso "normal" de suas vidas. Haverá momento em que
cessarão atenção e amparo, bem ou mal, dirigidos a todas as vítimas
da tragédia. No plano coletivo, começará pela frustração ante o não
cumprimento de promessas oficiais, pois muito do dito não se
formaliza em documento e a maior parte do documentado não chega à
execução. Verbas são aprovadas, mas não liberadas; e, quando
liberadas, sua maior parte se perde nos meios ou é desviada para
outros fins. Cada cidadão terá sua cota amarga, na batalha para
fazer valer seus direitos, ao sentir na pele a indiferença da
burocracia e má vontade de pessoas responsáveis por ela. Pessoas se
apiedam nos prime
ros momentos da
tragédia se transformam em algozes, mais tarde; documentos são
"desaparecidos"; manipulações e testemunhos "convincentes" fazem
parte do esquema e, lá um belo dia, a antiga vítima se descobre na
condição de estorvo, do qual todos querem se livrar.