A força feminina na
"política" das bandas
A divisão na sociedade
cachoeirense, em função das bandas de música, não chegava ao extremo
da inimizade entre famílias ou pessoas de lado a lado, como se chegou a
propagar fora dos limites de Cachoeira, muitas vezes por iniciativa de
fanfarrões convictos de que aquele exagero contava ponto positivo. Uma
das inverdades dizia que era mais fácil terminar no cemitério, de que
no altar, o namoro entre dois jovens, filhos de famílias adversárias
na política local. Pura gabolice de machista frustrado! É verdade que
alguns tentavam impedir e houve casos de casamentos não realizados, por
conta de intrigas forjadas ou por puro orgulho de pais que se sentiriam
como rendidos ao adversário. Mas eram exceções num universo mais
amplo das relações interfamiliares.
Muitos casamentos uniram
famílias de lados opostos nesses cento e quarenta anos, sem que
tragédia sangrenta tenha acontecido alguma vez. E nem podia ser de
outra forma porque, dentro de uma comunidade tão pequena, adversários
estavam lado a lado nas ruas, no trabalho, na escola, na igreja e como
vizinhos. É claro que assuntos ligados à música e interesses de suas
respectivas associações, as pessoas se comediam no trato com as
adversárias. Conversa mais ampla de natureza "partidária"
só entre "correligionários". Até hoje tal comportamento se
observa. Como se dizia antigamente: "lê com lê e cré com
cré". Fora disso, tudo era e é normal. Mas nos domínios do
casamento "heteropartidário", fenômeno curioso se observava
e poderia, hoje, ser objeto de estudos na área da moderna sociologia.
Sabe-se que somente nos
últimos anos a mulher veio a ganhar maior liberdade de ação, em
contraposição aos costumes anteriores perante os quais ela era
totalmente submissa ao homem. Tudo era decidido e controlado pelo homem,
que não abdicava de seu poder, mas em Cachoeira do Campo as mulheres
puseram abaixo essa submissão no referente à política local. Sem que
houvesse uma mobilização como se faz atualmente, as mulheres
mantinham-se fiéis ao vínculo "partidário" anterior ao
casamento. Se alguém tinha de "virar" para melhor harmonizar
os interesses domésticos, esse papel era quase sempre assumido pelo
homem. São raríssimos os casos em que as mulheres "viraram",
como então se dizia. Elas sempre resistiram. Quando não mudava de
lado, acompanhando a mulher, o marido se punha em posição neutra. E
como a educação dos filhos cabia à mãe, eles acabavam se orientando
pela preferência materna no tocante à "política" local. Por
essa razão uma família, tradicionalmente ligada a um lado, às vezes
apresenta um ramo pendente para o outro.
Pelo exposto vê-se que o
clima bélico, como acreditavam e ainda acreditam pessoas lá fora, não
passa de exagero na interpretação da competição, havida entre dois
partidos políticos do período imperial e herdada pelas bandas de
música a eles ligadas originalmente. Claro que já houve uns poucos
mais exaltados e radicais em suas posições, lado a lado. Isso, porém,
nunca afetou a ordem pública em Cachoeira ou o clima de cordialidade
entre indivíduos, de maneira generalizada. Muita crítica condenatória
já se ouviu à rivalidade que, entre as duas bandas de música, nunca
chegou à selvageria como acontece entre torcidas nos estádios de
futebol. Sempre se manifestou normal, civilizada, até mesmo salutar.
Sabe-se que portador de defeito moral, por vezes, preocupado em
escondê-lo, projeta-o em terceiros, assim como o ensinado pela
sabedoria popular: "macaco se senta no próprio rabo e pisa o do
seu semelhante".
nbatista@uai.com.br