A fruta-pão e o pobre
Desde que o
presidente eleito elegeu como prioridade das prioridades o combate à
fome, o assunto ganhou espaço na imprensa e nas rodas de conversa,
depois da violência e da corrupção. Qualquer pedaço de papel
impresso, de repente, lá está o comentário e a discussão em torno da
forma de distribuir a comida. E numa dessas leituras dei de cara com o
Ziraldo em prosa, tão bom como em cartum, a falar sobre a
discrepância entre as nossas potencialidades na produção de alimento
e a nossa capacidade de fazê-lo chegar a quem mais necessita. Talvez
seja esse o X da questão, porque o que não falta em qualquer programa
social de governo, não importa a cor política, é a figura do
oportunista, do atravessador, uma praga que, na natureza, se compara com
a chamada erva de passarinho. Antes mesmo que um programa entre em
funcionamento, já arrumaram uma maneira de lhe dar o nó. É como
vendedor de guarda-chuva em tempo de seca, na cidade grande: se, de
repente, cai do céu um toró, no mesmo ritmo e de algum buraco surge o
vendedor de guarda-chuva. A diferença é que este fatura o seu mas
trás benefícios aos desprevenidos contra a intempérie. Os outros
oportunistas puxam para si os benefícios destinados aos miseráveis.
Deixando de lado a
safadeza do atravessador, que o próprio Ziraldo aborda mui rapidamente,
talvez cauteloso contra a espécie daninha que poderia afanar-lhe a
fruta-pão tão elogiada a seguir na mesma crônica, aproveito a
oportunidade (olha o oportunismo aí!) para tecer considerações de
outro aspecto em se tratando de produção de alimentos. O cronista
evoca a fruta-pão, atribuindo-lhe predicados tão extensos no campo
nutritivo, que se pergunta o porquê de ela ser conhecida de apenas
poucos – eu mesmo ainda não tive o prazer de conhecê-la - e não ser
largamente aproveitada no combate à fome. Diz-se que sua árvore é de
fácil cultivo e produz, em pouco tempo, uma grande quantidade de
frutos; não necessita de cuidados como capina, rega, podendo
desenvolver-s perfeitamente entre a vegetação nativa. Colhida e
chegada à cozinha, a fruta se transformaria numa diversidade de
iguarias. Mas o detalhe, que me serviu de gancho para toda essa lorota
é que, segundo o Ziraldo, "não se lhe conhecem pragas". Eu
anteporia um cauteloso "ainda" à expressão, para não ser
acusado de mentiroso depois. Duvido que alguma praga não aparecesse se
a tal fruta virasse alimento dos pobres (ou carentes?). Vejam que, agora
produzidas em larga escala com o uso de agrotóxicos, as frutas ganham
marcas comerciais ao serem embaladas, faltando-lhes apenas nascer já
carimbadas para terem maior preço ainda. Enquanto isso nos quintais, a
manga, o pêssego, a goiaba, a ameixa e quantas mais apodrecem sob
ação de pragas diversas, quando não simplesmente bichadas. Só com o
uso de pesticidas se aproveita alguma coisa, com exceção da banana,
talvez a única fruta ainda livre de bichos, que resta nos quintais.
Até a efêmera jabuticaba já sofre o ataque de um fungo amarelo!
Quem se lembra
daquele limãozinho amarelo, por alguns chamado de "limão
miúdo" e outros de "limão galego"? Macio, suculento e
de agradável aroma, o limãozinho desapareceu. Em seu lugar, surgiu um
outro, duro, seco, sem cheiro e sem gosto. "Coincidentemente",
o desaparecimento iniciou-se uma semana depois de anunciadas possíveis
propriedades terapêuticas, que o limãozinho teria no trato de doenças
do coração; extensas culturas do limão foram erradicadas sob o
pretexto de que estariam tomadas pelo cancro cítrico.
Muita promessa para
ajudar o pobre é como laranja madura na beira da estrada: "ta
bichada, Zé, ou tem marimbondo no pé!"