PONTO DE VISTA DO BATISTA - 500

Denúncia contra galos em Ouro Preto

Có-cocó-ri-cóooooo! Có-cocó-ri-cóooooo! Com o cantar do galo anuncia-se o número quinhentos em artigos assinados por este escriba neste espaço semanal. É um número razoável de textos em seqüência, cuja publicação foi possível porque foi aberto o espaço necessário neste periódico e houve receptividade por parte do público leitor. Em país de raras oportunidades para quem ousa escrever e poucos leitores, a menos que o autor seja um nome consagrado, quinhentos artigos sucessivos representam uma conquista significativa junto ao público leitor. E, em sinal de agradecimento faço o galo cantar mais uma vez: có-cocó-ri-cóooooo!

Epa! Corro o risco de ser reclamado junto a redações de jornais, por ter um galo a cantar neste pedaço. Parece piada, mas, não é. Dizem que muitos estão a reclamar contra o canto de galos nas madrugadas ouropretanas. E há quem cogite a existência de lei específica contra a criação de galináceos na antiga Vila Rica, que já foi capital de Minas e coisa e tal. Se não houver, naturalmente que vão propor uma. Vereador não deve faltar para assumir tão nobre missão de zelar pelo sono dos reclamantes. Solução mais radical, segundo os inimigos de galos, seria confiscar o marido das penosas e transformá-lo em caldo, uma vez que sua carne, passada do ponto, é dura e não saborosa.. E aí, a insatisfação dos reclamantes seria substituída pela revolta dos proprietários de galinheiros. Se alguém tem que morrer de raiva, que morram os incomodados com o canto dos galos! Ora! Durma-se com um barulho desses! Não dos galos, mas dos opinantes fora do tempo e espaço. É falta de assunto em contraposição a tanta coisa séria a requerer discussão e solução. Configura-se a predominância do artificial sobre o natural, porque contra o barulho de fato, que agride a todos indistintamente, talvez não haja reclamação, pelo menos, da parte dos mesmos reclamantes. Seus ouvidos são "afinados" com zoeira, assim como a sensibilidade do brutamontes só reconhece a violência. Diante da delicadeza, o último se sente ofendido e em terceiros a vê como fraqueza. Para os inimigos dos galos, o normal é o "sonzão" produzido pelos carros de "rabo quente" e portas escancaradas nas praças; a publicidade sonora a extrapolar os limites de tolerância do ouvido humano; a baderna, até alta madrugada, em que se transformaram as antigas e folclóricas festas ouropretanas; e outros ruídos próprios da cultura do "tã-tã".

Mas o mais engraçado ainda é a pretensão dos opinantes de se julgarem residentes numa grande metrópole, ao classificarem os proprietários de galos como gente do interior que pensa estar na roça. Ora, meu Deus, e o que Ouro Preto é? Já foi capital, é cidade universitária, intelectual, e dotada de ar cosmopolita. Misturam-se línguas em suas esquinas e bodegas, mas do ponto de vista urbano, Ouro Preto não passa de uma roça; uma roça melhorada, mas é uma roça. E se muita gente da zona rural mudou para a cidade, foi porque faltou uma política de desenvolvimento do município e valorização de seu povo como um todo. A cidade de Ouro Preto poderia ser abastecida pelos onze distritos, que giram ao seu redor, se a política ouropretana (não só a partidária) não fosse voltada para o próprio umbigo "de ouro". O desprezo pelas coisas da roça é próprio mesmo da mentalidade tupiniquim que, no caso de Ouro Preto, exacerba-se em uns poucos e ditos "trezentões", que talvez prefiram comprar couve "da Ceasa" a adquiri-la de um produtor local, pois este é da roça.

Felizmente ainda existem galos a cantar nas madrugadas ouropretanas. Que eles assim continuem. Os incomodados, que vão reclamar noutra freguesia! Có-cocó-ricóooooo!… Ora, sim senhor!

nbatista@uai.com.br

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