Estava eu a
poucos passos dos dois garotos - ambos com algo em torno de oito
anos - em animada conversa. Contudo, não se podia ouvir bem o que
diziam, em razão do barulho ensurdecedor de carros, caminhões e
carretas a deslizar pela rodovia. Em dado momento, do garoto de voz
mais firme, ouvi: - mas, galinha não voa! O outro,
parecendo não concordar, balançava o corpo e com as mãos fazia
gestos, possivelmente a mostrar como ele vira a penosa dominar o ar.
Ao que seu companheiro sacudia a cabeça e repetia: galinha não
voa, não voa e pronto!
Pensei em me
achegar e tomar parte da conversa, ouvir o relato do primeiro
garoto, mas reconsiderei a ideia, optando pela não intervenção no
colóquio infantil. Embora não tivesse ouvido tudo, pude entender que
um defendia ponto de vista com base em experiência tida, enquanto
outro o rejeitava só porque nunca tivera a mesma experiência e,
talvez, sua mente já escapasse do universo infantil, onde imaginação
e fantasia não sofrem censuras.
De fato, galinha
não voa. Quando muito, usa as asas para saltar sobre cercas e muros
ou para não se esborrachar no chão. Mas, o insólito, por vezes,
acontece. E, assim sendo, a conversa dos garotos me levou à fase de
transição entre infância e adolescência, quando então os brinquedos
convencionais não mais satisfaziam e o espírito inquieto buscava
aventuras e experimentos ousados, ainda que sob riscos de acidentes
com sérias consequências. Naquela época, viagem espacial ainda
pertencia ao mundo dos sonhos de malucos, não havia saltado das
páginas em quadrinhos, cujos conteúdos eram absorvidos com avidez,
para abrir mais a imaginação infanto-juvenil. Na área prática, tudo
que levasse a pequenas explosões e deslocamento de objetos era
experimentado, quando olhos vigilantes não estavam sobre nós. Uma
das brincadeiras consistia em encher pequenos vidros com água,
arrolhá-los bem e os colocar sobre a chapa do fogão (fogão a gás
também não havia), que ficava acesso durante todo o dia. O resultado
era o estampido, o lançamento da rolha ao alto e o vapor a dominar o
ambiente.
Certo dia, ao
por os olhos em alguns "rodos" ("rodo" era abreviatura popular da
marca Rodouro) vazios de lança-perfume, então apenas brinquedo
carnavalesco, não usado como droga fora de estreito círculo mais
atrevido, vislumbrei possibilidade de avançar além das
"experiências" com os vidros na chapa quente. Nossa casa, dotada de
grande quintal, ficava logo atrás da capela de Santo Antônio e o
companheiro de traquinagens morava ao lado. Mostrei a ele o "rodo" e
expliquei o que pretendia fazer: encher com água e aquecê-lo em
pequena fogueira.
Retirada a
válvula do apetrecho de alumínio, tivemos grande dificuldade em
fazer o enchimento, pois não queríamos alargar muito o diminuto furo
original. Para vedar, utilizamos caule verde, bem firme. Acesa a
fogueira, ao lado da capela, o "rodo" foi lá colocado e aguardamos o
resultado. Depois de alguns minutos, ouviu-se chiado alto e forte
como o de rojão de vara. O tubo de alumínio lançou-se ao ar,
impelido pelo empuxo dado pelo vapor expelido, subiu alguns metros,
depois desceu e, em zig-zag, sobrevoou a área do "experimento",
obrigando-nos a abaixar para não sermos atingidos, antes de se
chocar contra a parede de uma das casas. A fogueira, parcialmente
apagada, espalhara cinza por todos os lados e às janelas das casas
muitos rostos se viam em franca reprovação àquela travessura. Entre
assustados e satisfeitos com a brincadeira, estávamos sentados na
grama a alguns metros da fogueira, quando outro barulho, às nossas
costas, nos pôs em sobressalto. Uma galinha, a gritar como só fazem
as da espécie, quando assustadas, saltou do nosso quintal e, à
altura do telhado, desapareceu do outro lado da capela. Pensava-se
que fosse pousar na grama, mas gritos desesperados indicavam que
continuava em seu voo destrambelhado. Um pouco mais, e, eis
que surge à frente, em nossa direção, sempre à altura do telhado da
capela de Santo Antônio, depois de contorná-la. Acompanhamos o
restante do seu voo até que pousou no mesmo ponto de onde partira.
De forma similar
ao feito de Santos Dumont, ao levantar voo, contornar a Torre Eiffel
e aterrissar com seu 14 Bis, provando que o mais pesado que o ar
pode voar, aquela galinha demonstrara que sua espécie também pode
alçar-se ao ar e manter voo controlado. Se não o faz é porque ciscar
o chão melhor lhe apetece. Pode-se dizer que assim é também a
espécie humana, à qual se abrem inúmeras possibilidades, nem de
longe sonhadas porque interesses mais próximos, imediatos e
palpáveis a desviam de objetivos nobres.