PONTO DE VISTA DO BATISTA

Gesto impatriótico

Outro tema, e de natureza jocosa, estava em pauta para esta edição, mas um fato diferente e confrontante com os brios nacionais, cultura, tradição e respeito ainda imperantes nos círculos da população católica brasileira leva-nos a mudar o rumo deste colóquio semanal. Mais amenidades neste espaço seria o ideal, se circunstâncias adversas e fora do nosso controle não forçassem a manutenção de temas sisudos, até graves, como o que é abordado nesta ocasião. O trivial é deixado para outro dia.

Desde que este país surgiu pela graça de Deus, obra dos portugueses, duro trabalho dos negros cativos e aculturação do que sobrou das nações indígenas, o sentimento religioso de feição católica tem sido o tempero espiritual da nação, mesmo não sendo a doutrina rigidamente seguida, o que não deixa de ser efeito do salutar critério da parte da hierarquia religiosa, que ensina sem impor. Embora religião e Estado sejam separados, o simbolismo nacional se manifesta espontaneamente nas ocasiões mais significativas da liturgia e rituais católicos, com a predominância das cores verde e amarelo nas ornamentações, a exibição da Bandeira Nacional, etc. É o sentimento de unidade nacional aliado ao sentimento religioso que, no caso específico do Brasil, é de maioria católica. A coroar todo o conjunto dessas manifestações está a execução do Hino Nacional, no momento da Consagração em missas solenes e nas procissões do Santíssimo Sacramento, por ocasião das festas da Ressurreição e do Corpus Christi.

Causou, portanto, indignação a determinação do padre de que não se executasse o Hino Nacional Brasileiro durante a procissão realizada, este ano, em Glaura (Casa Branca), sabendo-se que, posteriormente, a proibição se repetiu em Amarantina pela voz do mesmo sacerdote. Já tivéramos oportunidade de observar, em anos anteriores, que esse padre cometia, no mínimo, a indelicadeza de não aguardar a execução do hino, ao retomar o andamento da procissão. No ano passado, ele limitou as execuções ao início e ao término da procissão. Neste ano, sua ojeriza pelo símbolo nacional ultrapassou os limites, ao cercear o direito de a banda de música executá-lo e de fiéis ouvi-lo e entoá-lo. Foi como um tapa na cara de quem tem sentimentos cívicos, especialmente das corporações musicais que, entre outros deveres, assumem o de cultivar, preservar e disseminar.o civismo. Executa-se o Hino Nacional durante os atos solenes da liturgia católica como oração simbólica de toda a nação brasileira a pedir as bênçãos de Deus, tão necessárias como nunca antes se sentiu. Não foi inventado como se pensa. Foi incorporado às tradições desde os tempos da Igreja vinculada ao Estado. Rompeu-se o vínculo, mas o povo deu prosseguimento ao costume, que nunca prejudicou e ajuda em muito. A determinação arbitrária com ranço totalitarista é fruto da incivilidade, incultura e vulgaridade que assolam o país, ensejando que os símbolos sejam confundidos com o governo que a maioria pode até repudiar. Fazer tal confusão é o cúmulo da ignorância. Usando de expressão vulgar e matuta, talvez mais fácil de ser entendida por quem precisa, o governo muda de quatro em quatro anos e pode ser ocupado até pelo capeta, mas a nação é a mesma com todos seus hábitos, costumes, tradições, cultura, regionalismos, enfim todos os traços que unem o povo sob a mesma língua, espaço geográfico e governo. Nenhum governante ousa alterar tais características!

E essa identidade do povo brasileiro é representada pelos símbolos nacionais; nacionais porque representam a nação. Se representassem o governo seriam governamentais. Manifestar-se contra o governo todos têm o direito de fazê-lo, mas impedir o uso correto (facultado pela Lei 5.700/71) de símbolo nacional como meio é atentado à cidadania. É o mesmo que cercear o cidadão no direito da livre expressão, incluindo-se manifestação contra o governo, garantida pela Constituição.

Para quem gosta de futebol, já que estamos em clima de Copa do Mundo: o padre pisou na bola! Aliás, pensa que a bola é dele!

nbatista@uai.com.br

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