PONTO DE VISTA DO BATISTA

Golpe via telemarketing

Lá se foi o tempo em que o cidadão, para falar ao telefone com outra localidade tinha que aguardar, por longos minutos ou horas, a conexão que era feita pela telefonista; isso onde havia telefone, pois o privilégio era para comunidades maiores e pessoas de posse. Do interior brabo para a Capital (era como se referia a Belo Horizonte) ou qualquer outra cidade o meio de comunicação mais rápido e eficiente era a carta. O telegrama era para assuntos mais urgentes, mas que não fosse tanto, porque sua chegada ao destinatário podia acontecer depois de finda a necessidade. Hoje, fala-se com qualquer parte do mundo, a qualquer momento. Do mesmo modo, tudo mudou em questão de transporte. Para deslocamentos em torno de cem quilômetros, havia que planejar com antecedência como se fosse viagem internacional. Nem havia como voltar no mesmo dia, o que obrigava ao uso da mala, um trambolho de material rígido, por si só já pesado e que nem sempre comportava todo o necessário para a estada forçada. O guarda-pó era indumentária indispensável ao viajante, se não quisesse chegar ao destino com roupa coberta pelo pó da estrada. De Ouro Preto para os distritos, e vice-versa, a coisa era mais complicada, exceção para os que situam à margem do que foi a ferrovia (Central do Brasil), que tinham no trem "Maria Fumaça" o jeito mais fácil de fazer o percurso. Até bem poucos anos, havia que "mendigar" um lugar nos ônibus para fazer o percurso entre Cachoeira do Campo e Ouro Preto. À porta do imponente veículo com destino a Belo Horizonte, na "rodoviária" em frente ao Cine Vila Rica, em Ouro Preto, o motorista todo empertigado nem olhava para os "capiaus" de beira de estrada, que se aventuravam a pedir-lhe o "favor" do transporte. Ele simplesmente dizia que não havia lugar. Tudo isso é passado.

Movimenta-se hoje para qualquer lugar sem muita dificuldade. Até as malas melhoraram. Em lugar daquelas verdadeiras canastras temos bolsas, mais cômodas e acomodáveis. Mas, de comodidade em comodidade para uns chega-se ao incômodo para outros. As bolsas evoluíram para mochilas carregadas às costas, como pára-quedas, deixando livres as mãos para necessidades prementes. Aí vem, então, o desespero de quem está no ônibus. Entra um desses "pára-quedistas" e avança sem se lembrar do volume a esbarrar em tudo e todos à margem do seu caminho. Alguns superam a classificação de "pára-quedista", tão volumosa é a mochila. Estão mais para o caracol, que leva a casa às costas! Mesmo nas ruas, entre pedestres, tais mochileiros deviam se lembrar que a mochila é, na prática, como outra pessoa atrelada a ele. E já que se fala em ônibus, vale lembrar a situação do passageiro que, em tempo de chuva, embarca seco e desembarca molhado, porque falta a outros o cuidado de envolver o guarda-chuva (ou a sombrinha das mulheres) molhado. Uma sacola de supermercado levada com o guarda-chuva pode ser a solução simples e barata, que o passageiro já acomodado agradeceria, contra o "banho" indesejado.

Voltando à comunicação, que foi o mote inicial deste bolodório, o telefone nos ajuda, mas o telemarketing vindo com ele é o suplício que faltava aos nossos ouvidos saturados com tanto barulho, dito informativo. E, pior, é o golpe inventado para desencalhar livros, CDs e outros trecos. Devidamente treinada para isso, a operadora de telemarketing diz que você participou de uma pesquisa há algum tempo e que teria sido escolhido para receber um kit composto por livros CDs, fitas de vídeo e não sei mais o quê. E que se você tivesse que pagar, o pacote custaria "x". O golpe vem quando você se sente empolgado com a possibilidade de receber um presente. A operadora diz então que você pagará apenas o valor da embalagem e o frete. O tal custo é realmente bastante inferior ao valor que ela atribuiu ao kit. O presenteado só percebe o logro ao receber o pacote em casa. Costuma não corresponder ao valor realmente pago. E aí já é tarde. "São Jorge" já montou no cavalo!

nbatista@uai.com.br

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