Por mais que se queira
escrever ou falar sobre outros temas, nossas lembranças acabam
convergindo para o ataque terrorista que, volto a insistir, não atingiu
tão o somente o formidável poder acumulado pelo Estado norte-americano.
Os terroristas agrediram toda a humanidade quando, de forma covarde, com
desprezo às vidas de milhares de pessoas inocentes. Pensaram estar
descarregando o ódio nascido, todos sabem, de injustiças
incontestáveis, mas, que nem por isso justificam o bárbaro crime. O
mundo necessita construir outros valores nos quais os governos devem
assentar suas condutas, que devem colocar acima de tudo os direitos
humanos e o respeito pelos modos de vida, costumes e cultura de cada povo,
em paralelo com uma economia da qual não brotem excessos, nem para mais a
uma minoria e nem para menos à maioria esmagadora. Injustiça não se
combate com mais injustiça!
Para uma reflexão em
torno da situação em que vive o mundo vêm a calhar alguns pontos do
credo (espero que não tenha sido alterado) da Câmara Júnior
Internacional. A Câmara Júnior, assim como muitas outras organizações
voltadas para o desenvolvimento do indivíduo, como pessoa humana e como
cidadão, nasceu nos Estados Unidos. O membro júnior, em qualquer parte
do mundo onde a organização se faz presente, tem por princípio que
"a fraternidade dos homens transcende a soberania das nações".
Isso quer dizer que, embora haja fronteiras e divergências políticas
entre nações, os indivíduos são irmãos dentro da espécie humana, e,
isso é mais importante que todo o poder do Estado. Justamente o oposto
foi praticado pelos terroristas com a substituição da "fraternidade
dos homens" por ódio e violência contra semelhantes indefesos. A
reação à barbárie, no primeiro momento, caminhava para se concretizar
no mesmo nível, com a agravante de ser contra inimigo indeterminado ou
escolhido entre os mais suspeitos, segundo avaliação precipitada, sob
efeito do choque. A ira explosiva, que o bom senso esperava ser
substituída por ações com base na inteligência, manifestou-se
finalmente com o bombardeio dirigido ao território afegão, prevalecendo
a tese do olho por olho do governo norte-americano, em contraposição a
outro princípio do credo júnior, segundo o qual "os governos devem
ser de leis mais que de homens". Para o presente caso, lei
internacional específica não há, mas deveria ter sido levado antes à
discussão entre o maior número de governantes, antes da violência que
pretende combater a dos terroristas. O combate ao terrorismo internacional
requer o esforço de todas as nações, de preferência sem derramamento
de mais sangue, pois o que está em jogo não é a política deste ou
daquele governo, mas a segurança e o bem-estar da pessoa humana, definida
no credo júnior como o "grande tesouro da Terra". Deixando um
pouco de lado o que aconteceu, façamos o que parece ainda não ter sido
feito: um exercício de imaginação do ataque terrorista sob outras
circunstâncias.
Com toda a perda em
vidas humanas, prejuízos materiais e transtornos em todo o mundo sob o
tacão da covardia e crueldade, a humanidade ainda teve sorte por não
mais viver o período da chamada "guerra fria" com as duas
superpotências de então se acusando mutuamente. Imaginem o que poderia
ter acontecido, se vivêssemos hoje o auge da tensão entre Estados Unidos
e União Soviética. Antes de quaisquer outras suspeitas, a URSS teria
sido apontada como culpada. Em lugar da maciça mobilização das forças
convencionais norte-americanas e do intenso esforço diplomático em todo
o mundo, pode ser que uma guerra nuclear já tivesse acontecido. Com o
atentado do 11 de setembro, o mundo compreendeu que a URSS podia parecer,
mas, não chegou a ser de fato um perigo real. Mas, se ela ainda
existisse, Osama bin Laden continuaria sendo um desconhecido para o mundo,
que a essa altura ninguém imagina como estaria.