Não é preciso
ser grande estudioso do assunto ou fazer exaustivas pesquisas, para
concluir que o eleitor brasileiro não vincula o voto a partido
político, preferindo fazer sua escolha, olhando mais para o
candidato do que para o partido que o contém. Por alguma razão
particular, ele até pode ter simpatia por determinado partido, mas
diante da urna o que conta mesmo é o candidato, também por razões
nem sempre definidas. Por isso, candidatos notoriamente
identificados como corruptos conseguem se eleger, reeleger e fincar
raízes na política, dela fazendo profissão, a ponto de tentar
confundir exercício de cargo eletivo com emprego ordinário, regido
pela CLT. Para cativar o eleitor, político sem peso próprio se vale
de expedientes marotos, que se transformam ao longo do tempo, de
acordo com as conveniências e pressão da lei em torno do processo
eleitoral.
No tempo da
dentadura dada em troco do voto, valia a pena investir também no par
de botinas, um pé dado antes e outro depois da eleição, se eleito o
candidato promitente. Depois veio o material básico de construção, a
fazer a festa para comerciantes do setor, distribuindo pedra, areia
e brita em lotes periféricos dos centros urbanos. A cesta básica,
outra moeda de troca, incluía até faixa ou banner com a propaganda
do "generoso" candidato.
Ainda que em
casos pontuais, esses expedientes não tenham sido deixados de lado,
a maracutaia eleitoreira evoluiu para o nível coletivo, que pode
render mais, se bem trabalhadas as lideranças. Ao invés do voto
bateado, catado um a um, candidato "esperto" investe no coletivo,
por setores, desde que maleáveis as lideranças destes últimos,
também passíveis de serem seduzidas por benesses colocadas à sua
disposição. São os novos currais eleitorais, que substituem, com
vantagem – para o político, é claro - o "garimpo" de votos e o
coronelismo do voto de cabresto, mediante intimidações como perda de
emprego e outros direitos do cidadão. Na nova estratégia, ensaiam
soluções de problemas para este ou aquele setor, dizem apoiar
reivindicações de associações comunitárias, fingem abraçar causas
populares e ainda conseguem o apoio explícito de dirigentes de
associações e entidades para suas campanhas em direção às urnas.
Nada disso vinculado ao partido, mas à sacrossanta, altruísta,
benevolente e poderosa figura do candidato, referência mais forte
não tem o eleitor no quadro político, na hora de dar o voto. E a
prova de que o partido está em segundo plano, também para o
candidato, pode vir depois da posse, pois, conquistada a vaga, o
eleito costuma se bandear para outra sigla.
Nem a própria
instituição partidária se dá valor, a partir dos critérios de
afiliação que, praticamente, não existem, bastando ao novato o
simples preenchimento da ficha partidária com informações pessoais e
nada mais. Se perguntado sobre o estatuto do partido ou sua linha
ideológica, o novo afiliado não sabe responder e, provavelmente,
nunca saberá; o estatuto, porque nem tanto lhe interessa, e, a linha
ideológica, porque na maioria dos, por enquanto, vinte e sete
partidos, ela nem existe. Partidos maiores estão subdivididos,
internamente, em várias caras, ou tendências, como gostam de dizer.
Pode-se dizer que são partidos dentro de partidos. Com a maior
facilidade acordos são feitos entre partidos, desde que convenientes
às cúpulas e aos interesses pessoais de seus integrantes, o que
seria inviável, se diferenças marcantes houvesse entre as siglas,
além das denominações. Há partido aí sempre empoleirado no governo,
não importa quem detenha o comando deste, assim como há político
filiado a partido somente na condição de candidato; eleito, pula
fora e cumpre mandato sem partido. Então, para que partido político?
Política
verdadeira e democrática far-se-ia, se não houvesse partidos, se
conduzida livremente a partir da sociedade organizada, envolvendo o
eleitorado desde a escolha dos candidatos à eleição, cabendo-lhe
ainda a avaliação, nas urnas, sobre o desempenho e comportamento
ético dos eleitos, tudo sob a supervisão da Justiça Eleitoral, que
cassaria sumariamente os repudiados na avaliação do eleitorado.
Utopia? Sim, considerando-se que o galinheiro está sob o domínio da
raposa, mas perfeitamente realizável, à medida que se formar uma
sociedade mais cidadã, consciente do seu poder de decidir.
Contudo, se
aprovada a proposta da candidatura avulsa (sem vínculo a partido),
primeiramente em nível municipal, teremos dado o primeiro passo em
direção à liberdade do eleitorado na condução da Política. Se
aprovada e posta em execução a proposta, é preciso que se proíba, ao
eleito avulsamente, filiação a partido durante o exercício do
mandato, impedindo-se também a desvinculação ou troca de partido
durante o mesmo mandato. Partidos políticos já fizeram mal demais à
humanidade!