PONTO DE VISTA DO BATISTA

A guerra e a paróquia

A comunidade católica de Cachoeira do Campo celebrou, nesta semana (1º a 8 de setembro/2010), o tricentenário de instalação da Paróquia Nossa Senhora de Nazaré, marco relevante cuja importância histórica ultrapassa esta região e alcança todo o estado de Minas Gerais, pois é a paróquia mais antiga no município de Ouro Preto, criada em 1710, quatorze anos antes da paróquia de Nossa Senhora do Pilar/Ouro Preto e quarenta antes da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, no bairro do Antônio Dias/Ouro Preto. É uma das primeiras em território mineiro. Antes mesmo que Vila Rica recebesse esse nome em razão de sua elevação à categoria de vila, praticamente o mesmo status de cidade hoje, a Paróquia Nossa Senhora de Nazaré já existia.

Penso não haver registro do motivo que levou à criação da paróquia, antes que qualquer outra nos arraiais então existentes, mas creio firmemente que ele tenha existido. Sua criação não foi aleatória ou pelos bons ares de Cachoeira do Campo, que ainda devia ser chamada Cachoeira de Manoel de Melo, alusão ao seu provável primeiro morador, aqui estabelecido por volta de 1680.

Se consideradas a Guerra dos Emboabas e suas consequências, ai são encontradas fortes razões para a criação da paróquia. Até então os arraiais, entre os quais se incluíam os do Antônio Dias e do Ouro Preto (mais tarde reunidos para formar a Vila Rica de Albuquerque), estavam no mesmo nível, nenhum um com ascendência sobre outro. Portanto, não é surpresa o fato de a primeira paróquia ter sido criada fora do núcleo urbano hoje denominado Ouro Preto. O arraial de Antônio Dias, o de Ouro Preto, e o de Cachoeira de Manoel de Melo, também chamado Nossa Senhora de Nazaré dos Campos de Minas estavam no mesmo patamar hierárquico ou de importância.

A Guerra dos Emboabas foi confronto sangrento pelo direito de exploração do ouro, travado na região, de 1707 a 1709. De um lado estavam os paulistas, desbravadores que primeiro chegaram ao pé do Itacolomi sob a liderança do bandeirante Antônio Dias de Albuquerque; do outro estavam aventureiros diversos como portugueses, brasileiros de outras regiões, sobretudo da Bahia, liderados por Manuel Nunes Viana. Embora o motivo da guerra - as minas de ouro - estivesse nos arraiais do Ouro Preto e do Antônio Dias, mais neste último, a principal batalha da Guerra dos Emboabas, na região, foi travada em Cachoeira, ano de 1708, mês de novembro. Segundo alguns registros, Manuel Nunes Viana chegou a ser sagrado governador da capitania, dentro da então pequena ermida de Nossa Senhora de Nazaré, pelo frei Francisco Menezes que, na qualidade de mentor intelectual do movimento e lugar-tenente do Nunes Viana, arrombou a porta da igreja. O vigário local, padre Amador Rodrigues, fugiu amedrontado para o mato.

O governo português, constatando a fragilidade do controle sobre as minas de ouro, decidiu pela transformação da antiga capitania de São Vicente - cujo governador morava na capitania do Rio de Janeiro – em capitania de São Paulo e Minas do Ouro; isso em 3 de novembro de 1709. Coube ao primeiro governador da nova capitania, Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, levar a pacificação à zona do conflito. Como forma de compensar a derrota sofrida pelos paulistas frente aos emboabas, o novo governador elevou à categoria de vila os arraiais: Mariana, Sabará e Vila Rica. Vila Rica foi formada pela união de dois arraiais distintos: o do Antônio Dias e do Ouro Preto. Sob o status de vila, os antigos arraiais passavam a ter governo próprio, mais ou menos como é uma cidade, hoje. E é aí que – penso eu - entra a criação da Paróquia Nossa Senhora de Nazaré. Sem ter mina de ouro em seu território, Cachoeira foi palco de sangrenta batalha por sua exploração, perdeu vidas e ainda sofreu a vergonhosa profanação de sua igreja. Como Estado e Igreja estavam vinculados, no plano da pacificação do governador coube a criação da paróquia, que se instalou, em 1710, como compensação aos danos físicos e morais, praticamente um ano antes de as três vilas serem instaladas.

Isso demonstra a importância de Cachoeira do Campo, àquela época, dentro do esquema político-administrativo colonial na região, estando fora de cogitação a criação da paróquia em arraial sem expressão. Ficou evidente, mais tarde, quando a primitiva ermida foi substituída pelo magnífico templo, que se explode em beleza interna em contraste com a simplicidade externa; ficou evidente também com a construção do palácio do governador, que dizem ter sido para descanso; ficou evidente na construção do grande quartel de cavalaria, verdadeira fortaleza e única edificação do gênero em toda as Gerais, mais tarde abrigo das Escolas Dom Bosco, a grande obra salesiana. E a existência desse quartel, àquela época, naquele local, joga por terra a assertiva de que o palácio era para apenas para descanso e férias do governador. A verdade é que os donos do poder, não suportando o clima inóspito de Vila Rica, buscavam no "Palácio da Cachoeira" amenidades no clima e nas relações sociais.

Três centúrias guardam a história da Paróquia Nossa Senhora de Nazaré, marcada por muitas provas de fé da comunidade, mas, nas comemorações, sua igreja-matriz foi escondida por monstrengo de onde som abusivo expulsou muitos da praça.

nbatista@uai.com.br

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