Hieróglifo moderno
Não há muito tempo
tratamos aqui da manuscrita, meio de comunicação com tendência ao
desaparecimento em decorrência dos avanços tecnológicos, que já se
valeu do estilete, da pedra, da pena de ganso, do lápis, da caneta de
molhar, da caneta-tinteiro e ainda se vale da esferográfica. Esta
última, até quando, não se sabe. Mas, é certo que cada vez mais se
tornam incompreensíveis seus usuários, menos pela pressa e pouco uso
do que por falta de adestramento, o mínimo necessário para que os
caracteres se apresentem legíveis. Não somente os de pouco tempo na
escola, pois o "fenômeno" dos garranchos como se resultantes
de passeio feito, no papel, por besouro com as patas sujas de tinta,
também se constata na escrita de letrados, mantendo-se à parte o
receituário de médicos, que é mais devido à pressa. Na maioria das
vezes não há diferença entre a letra do universitário e a do
alfabetizando. É uma lástima! Diante de escrita com melhor aparência,
quedam-se todos, pois é coisa rara entre tanta mediocridade.
O que me leva a
abordar o assunto ouvi, dia desses, numa reportagem de televisão. Em
conversa com uns e outros, entre jovens adolescentes e
pré-adolescentes, a repórter ouviu da maioria a declaração de que
pouco se vale da manuscrita, uma vez que a nova geração está mais
acostumada a teclar. E, conferindo a letra de alguns, a repórter
concluiu que a garranchada se deve ao fato de eles usarem mais o
computador. Conclusão falsa! O uso do computador pode ser agravante,
mas não a causa primária. Muito antes que o micro invadisse nossas
vidas, a qualidade da manuscrita vinha caindo. O tipo cursivo
deteriorou-se a tal ponto que em muitos casos, há pessoas que só
conseguem se fazer entender por meio da escrita, valendo-se da letra de
imprensa.
Quando começou, como
e porque piorou a qualidade da manuscrita tem relação com a
introdução da esferográfica. Em outro artigo, no qual a
esferográfica foi tema, disse que o novo instrumento da escrita
dispensou os cuidados antes requeridos pela caneta de pena (de molhar ou
do tipo tinteiro). As antigas canetas só podiam ser seguradas numa
posição e o seu uso exigia adestramento, razão pela qual os escolares
só a conheciam no segundo ano. A caneta, assim como o lápis, era
segura pelas pontas do polegar e indicador e sustentada embaixo pelo
dedo médio, na junção da falanginha com a falangeta. E o ângulo de
sua inclinação em relação ao papel era determinado pela mão, pois
sua outra extremidade devia repousar-se na curva formada pelas bases do
polegar e do indicador. A esfera no lugar do estilete (pena) dispensou
tudo isso, pois, de qualquer forma e posição rabisca-se com a caneta
descartável. Seguram-na entre o indicador e o médio, por fora, ou por
dentro, abraçando-a com o polegar. Até fechada pelos cinco dedos, já
vi a esferográfica sendo usada. Não há mesmo como produzir escrita
decente dessa maneira! Contudo, o pior poderia ter sido evitado, se os
alfabetizadores tivessem continuado com o cuidado de ensinar o modo
correto de empunhar o instrumento de escrita.
Antes da
esferográfica, a professora reservava um bom tempo na primeira aula
para ensinar aos pequenos (alguns até bem marmanjos) como se segura o
lápis. Depois disso, corria toda a classe, de carteira em carteira,
para corrigir. Ao encontrar alguém que não tivesse assimilado a
maneira correta, ela própria colocava o lápis na mão do educando e o
orientava até que não houvesse mais dúvidas. Para aprimorar a letra
faziam-se exercícios de caligrafia em caderno apropriado. É claro que
nem todos se tornavam calígrafos, mas a maioria desenvolvia letra
legível.
Culpar o uso do
computador pela decadência da manuscrita é jogar debaixo do tapete o
pecado da omissão.