A farsa do horário político
Campanha eleitoral é um
debate público e democrático mediante o qual pretende-se conhecer os
candidatos colocados pelos partidos à apreciação popular com vistas
à ocupação de cargos na administração pública. Poderia ser de
outra forma o desenvolvimento das campanhas, mas, por enquanto a
democracia aponta esta que aí está como a melhor para que o povo se
engaje no processo, faça sua escolha e a sacramente por meio do voto
secreto. Discordo, em parte, do processo e por isso não assisto aos
programas do chamado horário gratuito imposto pelo TRE. E por
manifestar esta opinião com terceiros, ouvi críticas. Fui recriminado
sob o argumento de que o programa me colocaria informado quanto às
qualidades de cada candidato e assim poderia escolher em quem deveria
votar e coisa e tal.
Discordo radicalmente da
opinião e digo mais. É o meio mais fácil de induzir, para não dizer
enganar, a maioria do eleitorado. Tanto é verdade que os candidatos com
pouca cotação no início da campanha aguardam ansiosamente o horário
gratuito na televisão. É na mamata concedida pelo TRE que alguns deles
tiram o pé do atoleiro, graças aos recursos que a própria televisão
oferece e acresce ao seu poder de sedução associada à mesma capacidade do
candidato. Para se conhecer um pouco do candidato, o programa gratuito
é o meio menos adequado. E a lógica desta afirmação está no fato de
que ninguém, que pretenda conquistar a simpatia do público, vai à
televisão expor seus próprios defeitos. É parte da natureza humana
querer mostrar-se como o bom, sem defeitos e dotado de capacidade, mesmo
que seu íntimo não creia muito. Uma bela fachada nem sempre quer dizer
que há edificação atrás de si! Esta é a verdade sobre o programa
gratuito do TRE. O candidato mostra a fachada que quer notada e
assimilada pelo eleitorado, como sendo sua verdadeira identidade. O ser
humano tem dificuldade de falar, honestamente, de si próprio e não
seria na propaganda, muito necessária, de seu nome que faria isso. Ele
sempre mascara a verdade. Ironicamente, quem fala de nós, com
honestidade, são os nossos amigos, porque eles, sim, conhecem nossos
defeitos. E, quando verdadeiros amigos, dizem, na nossa cara, o nosso
lado escuro! Ao contrário do que parece, os que só nos elogiam nem
sempre são amigos. São puxa-sacos! Como no programa do TRE o candidato
fala de si e suas próprias "virtudes", aumentando os defeitos
do adversário; os que dele falam, no mesmo espaço, quase sempre têm
algum interesse em sua vitória; e seus verdadeiros amigos, se
convidados a dar depoimento, ficariam constrangidos em dizer a verdade
sobre o "produto" na vitrina, pouco ou nada se aproveita da TV
para que se possa avaliar de fato o candidato. Por enquanto as melhores
fontes são informações e opiniões de pessoas isentas de quaisquer
ligações com o candidato; e em programas jornalísticos da televisão
– poucos e em horários incompatíveis com os do telespectador - em
artigos e depoimentos veiculados por jornais e revistas (que a maioria
não lê).
No lugar dessa farsa do
horário político, o melhor seria que representantes de setores da
sociedade debatessem em torno das informações e opiniões tidas sobre
o candidato, sem qualquer ingerência deste e sob a observação de
representantes partidários. Caberia a estes últimos, em horário à
parte, o esclarecimento de dúvidas, a correção de erros e defesa do
candidato. Como a esta sugestão, dificilmente, teríamos a aprovação
dos principais interessados, quem quiser perder tempo e, eventualmente,
enganado, que a continue a assistir à xaropada. Quanto a mim, os
cinqüenta minutos do TRE dedico-os ao descanso do televisor, enquanto
me ocupo com coisa mais útil!