PONTO DE VISTA DO BATISTA

Humilhação a velhos profissionais

Há certa tensão na sala onde cerca de quarenta pessoas, homens e mulheres, aguardam o sinal para encarar perguntas no papel que têm à frente. As pessoas recebem provas diferenciadas em dois grupos, que se alternam por colunas de carteiras suficientemente distantes para que olhos "compridos" nada coletem em explorações indiscretas nos arredores. Como aquela, pelo menos mais sete ou oito salas abrigam igual número de pessoas na mesma situação, vigiadas por monitores atentos, que não permitem às mãos dos candidatos outros objetos que não sejam a esferográfica e/ou lápis. Pelo menos ali, não se ouviriam irritantes sinais de celulares! Descrito assim, até parece que se trata de vestibular, o terrível sistema seletivo para ingresso na universidade!

Até que pode ser considerado vestibular, o que tantos candidatos enfrentam, só que em situação inversa. Aqui, seleciona-se quem pode conservar posição conquistada há algum tempo. Quem não é aprovado na primeira tem outras oportunidades, mas, persistindo o fracasso, não se sabe o que pode acontecer ao condutor de veículo automotor. O Contran, na Resolução que regulamentou a questão, não esclarece.

Criada pelas autoridades do trânsito, é a mais nova forma de tomar dinheiro do cidadão, na hora da renovação da Carteira Nacional de Habilitação-CNH, ou "carta" na linguagem paulista. Momentos antes, na imensa fila formada para ingresso nas dependências usadas para a realização da prova, as opiniões denotavam um misto de revolta e ansiedade em torno da exigência. Com razão, profissionais habilitados há trinta anos ou mais, não se conformavam com o fato de verem no trânsito verdadeiros assassinos do volante, premiados pela impunidade, enquanto os limpos de qualquer culpa e conscientes de suas responsabilidades corriam o risco de ser reprovados na prova, o que por si só representava humilhação, depois de tantos anos de serviços prestados. Alguns tinham freqüentado o curso, mas outros por falta de dinheiro, tinham tentado entender a cartilha que inclui provas simuladas. Uns e outros continuavam apreensivos e cheios de dúvidas. Para motoristas detentores de escolaridade suficiente e habituados à leitura as questões formuladas não são bichos-de-sete-cabeças, ao contrário do que pode parecer aos demais, entre os quais a sobrevivência mais depende da habilitação ao volante. Dava para sentir a angústia daquelas pessoas premidas entre a exigência legal e a necessidade de se manterem habilitadas. Pelo tempo de exercício da profissão, muitos dos que aguardavam na fila, assim como milhares outros espalhados pelo país, mereciam consideração especial. Nada lhes tira o mérito do trabalho e se na atividade permanecem por tanto tempo é porque se classificam acima da média entre os bons profissionais de sua categoria.

Não é por não entender e responder às perguntas da prova que o cidadão deixa de ser bom motorista, assim como aprovação com louvor não o torna apto e consciente de suas responsabilidades no trânsito. Por isso todos ali, na sala de prova, consideram injustas as exigências para renovação da CNH dos condutores habilitados antes da vigência do Código de Trânsito Brasileiro, assim como consideram necessário mais rigor na concessão de novas habilitações e na aplicação da lei aos infratores. Alguns vão além com sugestão de inclusão do básico da legislação de trânsito no ensino fundamental, para que futuros cidadãos, mesmo não condutores, estejam familiarizados com a questão.

nbatista@uai.com.br

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