Falta humildade aos
tupiniquins
A última semana foi
marcada, na área do turismo internacional, pelo alerta do governo
norte-americano aos seus cidadãos sobre os riscos que correm ao
desembarcar no Brasil como turistas. A reação no Brasil, como
sempre, foi a de tentar esconder o lixo debaixo do tapete. Segundo
declarações tupiniquins, o governo dos Estados Unidos tem uma visão
distorcida sobre a violência aqui; há exagero nos números e a
polícia está preparada para prevenir, coibir a violência, e as
ocorrências não extrapolam a rotina vivida por qualquer cidade no
mundo.
Não é bem assim, pois até
pequenas cidades padecem da mesma falta de segurança que, nas
metrópoles, faz os criminosos zombar da lei abertamente e ocupar o
lugar do Estado. Ironicamente, soube-se, logo em seguida, de grande
número de turistas molestados violentamente naquelas últimas horas.
A realidade por si só desfaz qualquer esperança de anular os efeitos
pretendidos com a reação, cuja natureza não passa de disfarce da
incapacidade de lidar com o problema, no caso, a violência.
Falta-nos a humildade para reconhecer que se perdeu a capacidade de
controle sobre a violência para, em seguida encarar o problema de
frente com decisão política. É como o indivíduo que só consegue
controlar ou domar seus vícios e defeitos a partir do momento em que
os assume e se compromete a combatê-los. Enquanto negar que os tem,
continuará a padecer dos mesmos problemas. A violência urbana no
Brasil ultrapassou todos os limites e, no estágio em que está, só um
tratamento de choque poderá quebrar a tendência de ascensão:
investimentos maciços na recuperação, em todos os sentidos, das
populações marginalizadas (vítimas na condição de reféns do crime
organizado), e combate duro, sem trégua, à criminalidade e à
corrupção que lhe dá guarida. Não é nos melindrando com alertas dado
por terceiros entre estes mesmos, que recolocaremos a segurança
pública nos níveis desejáveis com reflexos imediatos na redução da
criminalidade. E todo governo tem, não só o direito, mas o dever de
prevenir seus cidadãos sobre quaisquer riscos que possam correr em
outro país. Vale aqui outra comparação em nível individual. Diante
dos riscos a que estão expostos os filhos ao sair de casa, os pais
têm o dever de alertá-los. Talvez menos brasileiros corressem riscos
na imigração ilegal nos Estados Unidos, e maior número evitasse
sofrer as humilhações e discriminações existentes naquele país
contra os latino-americanos, se nosso governo adotasse os mesmos
cuidados que o de lá adota com relação aos seus cidadãos, ao sair de
suas fronteiras.
Sabe-se que a violência
descontrolada é o maior inibidor do turismo, mas a negação de sua
existência diante dos fatos tem o mesmo efeito da propaganda
enganosa. No primeiro momento pode ser favorável a quem a faz, mas,
daí em diante o quadro se reverte. Negar o alto grau de violência
que, só na semana passada, atingiu dezenove turistas estrangeiros no
Rio de Janeiro, chega a ser desrespeito para com o brasileiro que,
em muitos lugares tem medo de sair de casa, ou aí mesmo vive como se
combatente fosse, em trincheira, arrastando-se no chão para que uma
bala não o encontre pelo caminho.
Trabalha-se duro,
recolhem-se impostos, ouvem-se promessas de programas de combate ao
crime e à violência, mas a vida do cidadão trabalhador continua a
não valer nada para bandidos e desprezada por governos inertes,
perdidos em discussões estéreis nas quais o que fala mais alto é a
vaidade.