Idoso: uma questão de direito

                                                                                                                     (*) Wellington Xavier


Um tempo diferenciado de velhice levam os idosos a serem visualizados sob novo prisma. Eliminam-se os preconceitos, estereótipos, mitos, mas ainda é preciso uma libertação maior. Conquistaram há cinco anos o Estatuto do Idoso, elaborado com a participação e discussão da sociedade, sendo um instrumento normativo, formulado para responder à necessidade de transformar um dever moral em dever legal.

Entretanto, para que ele não se torne letra morta, há que se empreender a necessidade imperiosa de processos pedagógicos e participativos que mudem a visão ultrapassada e retrógada de alguns em relação à questão dos idosos, vendo-os como uma peça descartável. Há quem os julgue de somente dar despesas e não se sente constrangido em jogá-los em um abrigo ou em quartinho de fundo de quintal, sendo vítimas de uma sociedade que exclui aquele que já não pode produzir.
Assim como colocamos data de validade nos produtos, também colocamos nos idosos, acabando por dizer que a melhor parte da vida é a juventude e marginalizamos os idosos como decadentes e improdutivos. Nossa cultura ainda discrimina em demasia o idoso, mas ele precisa ser reconhecido pelo cidadão que é, pela história de luta que vivenciou e pelo acúmulo de experiência e sabedoria que encerra. Tiramos dos velhos a sua dignidade, seu posto de trabalho, sua biografia. São tratados como estorvo, como seres improdutivos, sem memória, maçantes e fracos.

Entretanto mais importante que mostrar como o idoso é tratado é falar sobre a questão de políticas públicas. Embora a mídia não se canse de mostrar, nunca é demais enfocar que a população idosa cresce no Brasil num ritmo quatro vezes maior que nos países desenvolvidos. E, apesar de todas estas constatações, a sociedade - e muito menos o Poder Público - está preparada para esta demanda, que passou a ser preocupação também dos sociólogos.

A experiência de ficar velho, de viver 70 anos, ou mais, é muito nova. Em 99% da história da humanidade, as pessoas nunca viveram mais do que 30 ou 35 anos. Não estamos acostumados a esta realidade e temos então de revolucionar o modo como os idosos são tratados, pois nossa sociedade não vai sobreviver se o seu maior grupo populacional for colocado à margem no futuro, como acontece hoje.
Por isso é preciso construir desde já esta nova realidade com o estabelecimento de políticas públicas que assegurem a construção desse novo modelo de sociedade. É preciso envolver a sociedade civil, entidades governamentais e não-governamentais, a mídia, a escola e principalmente, o Poder Público.

É preciso investir não só em políticas públicas de saúde, mas também em programas sociais. E não devem ser atitudes isoladas. É necessário pensar num esforço multisetorial para que as políticas sejam adequadas a este conjunto. É necessária uma consciência social coletiva, dando ao idoso respeito, dignidade e, sobretudo, direitos. É necessária decisão política por parte do Poder Público na determinação de leis existentes e na criação de outras. É preciso repassar informações, estimular a criação de espaços sociais adequados, viabilizadores de crescimento sócio-existencial, conferindo aos idosos um tempo de bem estar e plenitude.

O importante neste momento talvez seja o despertar para uma ação conjunta verdadeira, na qual o Poder Público e a sociedade encontrem formas de melhorar a condição de ser do idoso, por uma questão de civismo, justiça e direito. São injustas as omissões, a exploração, a discriminação e a insensibilidade em relação à pessoa idosa. É questão de patriotismo amar, respeitar e dignificar os idosos, que ainda tem muito a dar, ajudar, contribuir, aconselhar e orientar as gerações mais novas, incutindo nos mesmos que os cabelos brancos devam significar - para quem os possuem - mais sabedoria e principalmente mais respeito e compreensão.

E aos idosos de hoje devemos dizer que a cidadania não se aposenta. É imprescindível a participação dos mesmos, dando contribuições mais significativas através de associações, paróquias, clubes e Conselhos. É necessária maior participação tanto na doação de seus serviços como na cobrança de ações dos políticos, agindo em favor não apenas dos idosos de hoje, mas também das gerações futuras.
É preciso repartir conhecimentos, interesses, habilidades, com aqueles que não tiveram as mesmas oportunidades e vivem isolados. Devem, assim, deixar marcas de gerar a valorização da vida, uma vida sem temor, sem medo do passado e sem receio de prestar conta. Têm de descobrir o que fazer com este tempo que estão ganhando a mais. Um tempo que é para reconstruírem-se, e tentarem novas trilhas, para fortalecerem amizades e alicerçarem as suas vidas em parâmetros maiores de dignidade, ética, solidariedade e respeito.
Ouro Preto, outubro de 2008

(*) Wellington Xavier é Conselheiro Municipal do Idoso e Coordenador do P.A.I.
Programa de Atendimento ao Idoso, em Ouro Preto-MG
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