Vivemos a era da
massificação na qual tudo que se produz visa um grande mercado, um
grande público, bem diferente do que era há quarenta ou cinqüenta
anos, quando da sociedade ainda muito segmentada grupos inteiros não
tinham como ingressar num mercado mais amplo de consumo. Eram limitados
por condições nem sempre de origem econômica, porém tão impeditivas
que, praticamente, igualava o potentado ao miserável em certos
aspectos. A população rural, por exemplo, não podia usufruir a
comodidade dos eletrodomésticos, pois lhe faltava a energia elétrica.
Com exceção de uns poucos mais corajosos que investiam numa usina
doméstica, a grande maioria nem conhecia rádio ou geladeira. Mesmo o
vestuário, tão necessário como o arroz com feijão na mesa,
distinguia rudemente o habitante da roça dos seus semelhantes das
cidades e, entre os habitantes destas, diferença também havia no
vestir entre as camadas sociais. Hoje, o mesmo tênis vendido ao jovem
da metrópole chega ao outrora caipira lá dos cafundós; computador do
mesmo tipo liga, pela internet, o habitante do mais distante povoado a
qualquer parte do mundo. Em muitos casos, o cidadão do interior é mais
bem informado que o da cidade. Explica-se: aquele tem mais tempo! A
durabilidade dos produtos atuais não se compara aos seus similares
antigos, mais resistentes. Mas, a concorrência exige que se esmere na
qualidade.
Embora haja uma grande massa
de deserdados da sorte e abandonados pelas políticas de governo, a
população, de um modo geral, obteve ganho em conforto e acesso a
muitos bens e serviços antes extremamente restritos a faixas
privilegiadas. O mesmo, entretanto, não se pode dizer dos serviços
artísticos de entretenimento, a começar dos ditos artistas cujo
sucesso é fruto da mídia movida pelo dinheiro. O verdadeiro artista da
voz, por exemplo, arrebatava o público com o talento mostrado na
interpretação de repertório bem produzido por outra classe de
artista, nem sempre conhecido do grande público. Os cantores, homem ou
mulher, davam seu recado, no gogó, sem os recursos eletrônicos que
transformam qualquer imbecil em ídolo das massas. A música enlevava o
espírito e entretinha o público, sem o concurso de efeitos visuais,
criados para disfarçar a mediocridade das apresentações e a
boçalidade das composições. Hoje vale tudo, desde o barulho infernal
até fogo no palco! O anúncio de uma grande apresentação (hoje se diz
show) era calcado na qualidade do artista ou dos artistas. Atualmente, a
divulgação de tais eventos se monta sobre a tonelagem dos equipamentos
utilizados, tamanho do palco, potência das caixas de som e outros
detalhes que nada têm a ver com a arte em si. Os auditórios das
emissoras de rádio e os pequenos clubes, onde cada faixa da sociedade
se reunia familiarmente, deram lugar às "modernas" casas de
shows sem compromisso com nada além do faturamento.
A tragédia do "Canecão
Mineiro" pôs a nu, não somente a ineficiência e omissão dos
órgãos governamentais responsáveis pela segurança, além de
possível promiscuidade entre funcionários do setor e promotores de
eventos. Revelou a mediocridade, lugar comum da indústria do
entretenimento que não hesita no uso de apelativos, para seduzir a
populaça carente de lazer. O uso de fogos de artifícios em palco
aberto denuncia qualidade duvidosa de um show musical, porém, em
recinto fechado é atestado de estupidez, sobretudo em ambientes
decorados com material de fácil combustão. E não é preciso acontecer
um incêndio para causar danos à integridade física e á saúde dos
circunstantes. A fumaça derivada da queima de tais fogos, em recinto
fechado e ocupado por mil e quinhentas pessoas, se encarrega de produzir
asfixias letais. Talento e criatividade foram substituídos por
mediocridade e imbecilidade!