PONTO DE VISTA DO BATISTA

Império da vulgaridade

Dentro do quarto de hotel, onde fui me recuperar do cansaço físico causado pela descida às margens do rio Fanado e posterior subida, passo a passo, das ladeiras de Minas Novas, no acompanhamento das manifestações populares de fé católica e devoção à Nossa Senhora do Rosário, quedei-me a pensar no porquê de uma parte do povo lutar pela preservação de seus valores culturais, até com sacrifícios pessoais, enquanto outra simplesmente os descarta. Dentro de seis anos, esta é a quarta vez que visito Minas Novas por ocasião de sua mais significativa festa religiosa e popular, mantida com as principais características originais desde seu surgimento em 1774, conforme registros históricos. O mesmo cuidado com as tradições, esmero nas realizações, espírito fraterno, e respeito não só ao sagrado representado pela religião como também ao profano representado pela pessoa humana.

Surgida, na comunidade negra e escrava, como lenitivo espiritual ao sofrimento próprio de sua condição e meio de expressar a cultura de suas nações de origem, a festa de Nossa Senhora do Rosário, em Minas Novas, é a essência do que deveria ser toda a nação brasileira em torno de sua identidade cultural, irmanando-se todas as etnias na perpetuação dos mais altos valores. Durante os três dias culminantes da festa, a cidade se volta para as celebrações religiosas/culturais, cujo desenrolar se processo sob o maior respeito, desde o alto da sacralidade do rito católico até a emocionante disciplina do povo nos diversos momentos em que é alvo de farta distribuição de guloseimas. Sem atropelos, o povo participa de tudo, sem esquecer a característica e especial deferência ao visitante. A ordem é espontânea, assim como a alegria. Nem mesmo os "jecas do asfalto" (infelizmente, Minas Novas também os tem, como nós!), ousam ligar as "tralhas elétricas" durante a realização dos eventos. A compensação se faz posteriormente, pois até dez carros com rabeiras abertas se posicionam no mesmo espaço para produzir o caos em zoeira.

Estava a considerar tudo isso, quando resolvi me ligar ao mundo exterior, acionando a TV. O canal conectado apresentava programa entre os vários de imbecilidades dominicais e dele veio o golpe, revoltante e brutal, a dar-me resposta sobre o porquê de uns preservarem, e outros, não, a cultura. Como se estivesse a achincalhar melodia caída em desgraça na opinião pública, um dito humorista fazia paródia esculhambada ao Hino Nacional Brasileiro. Substituir a bela letra por outra do mesmo nível já não seria correto; fazê-la com deboche é o maior dos insultos à nação.

Ha cinco anos, este escriba lançou protesto contra atitude arbitrária, com ranço totalitarista, do padre que proibiu a execução do mesmo hino durante procissão na festa do Corpus Christi. Como aquele sacerdote que confundia símbolos nacionais com coisas do governo abominado por ele, pseudo-artistas, sob cobertura da mídia, conseguem o pior: fazem do Hino Nacional objeto ridículo na onda de críticas ao governo. É o máximo do desrespeito ao povo como nação, prova de anti-cultura e de deseducação!

Se queremos ser respeitados pela comunidade internacional, há primeiro que aprender a respeitar nossos símbolos, valorizar o que somos como povo, independente da qualidade do governo. Não cheguemos ao extremo da violência, mas, temos a aprender com outros povos que se levantam contra o insulto aos seus símbolos sagrados, não importa de onde venha o ofensor. Paradoxalmente, o canal de TV é o mesmo que se mobilizou contra seu concorrente no episódio dos chutes, dados por ministro de outra crença, na imagem de Nossa Senhora Aparecida. Na época, a aquela rede de televisão pretendeu passar à opinião pública a imagem de defensora dos sentimentos religiosos da maioria. Com o episódio atual cai a máscara que cobria seus verdadeiros propósitos: combate à emissora que ameaça sua audiência!

E que não venham argumentar que a paródia ao Hino Nacional Brasileiro é expressão artística e, como tal, não poderia ser censurada. Para tudo há um limite. Ninguém tem o direito de, por meio da televisão, insultar e desrespeitar a tudo e a todos indistintamente. Insulto e desrespeito não constituem obra de arte. E tenho dito!

nbatista@uai.com.br

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