Impontualidade como
destaque
Pontualidade não é
característica que bem qualifique o brasileiro em qualquer parte do
mundo, ficando ele entre os últimos no cumprimento dessa norma
ditada pela boa educação. Não cumpre e ainda faz blague sobre o
comportamento dos poucos entre patrícios que o cumprem. Nota-se o
pouco caso aos ponteiros do relógio até na fixação da hora dos
eventos. Enquanto em outros países essa fixação se faz mesmo em hora
picada, contando-se minuto a minuto, aqui tudo se marca em hora
redonda ou, quando muito fracionada, aos quinze minutos ou um quarto
de hora. Talvez essa característica tenha sido o que inspirou Santos
Dumont na criação do relógio de pulso, acreditando que tendo o
relógio à mão, ou mais próximo dela sem que precisasse retirá-lo do
bolso do colete, o brasileiro passasse a ser mais pontual. Longe de
ajustar o portador à sua agenda no tempo, o relógio de pulso foi
assimilado mais como adorno pessoal e, em certa época, símbolo de
status social. Está no gene tupiniquim a ojeriza à hora estabelecida
e quem trabalha na área de recursos humanos sabe bem disso.
Lembro-me de caso curioso
passado na prefeitura de Ouro Preto, cujo departamento do pessoal,
na época, dava tolerância de dez minutos a eventuais retardatários;
liberalidade absurda em comparação com procedimento adotado no setor
privado. Depois de algum tempo, observava-se que vários servidores
já ultrapassavam, em muito, os dez minutos, e a grande maioria
chegava dentro da faixa de tolerância. Anunciou-se então que tal
abuso não mais seria admitido a partir de determinada data,
mantendo-se, no entanto, a tolerância dos dez minutos. No dia
indicado, servidora qualificada, porém habituada ao atraso, chegou
onze minutos depois da hora regulamentar e não mais encontrou seu
cartão de ponto.
Supostamente atingida em
seus brios, bradou aos céus e terra contra a "injustiça" que lhe
pesava por ter chegado apenas "um minuto" atrasada. Fora-lhe
oferecido um dedo e ela queria tomar todo o braço!
Do hábito do atraso como
marca brasileira bom proveito tiram indivíduos, que primam pela
auto-evidência em eventos públicos, ou seja, gostam de ser notados,
ainda que o acontecimento não os tenha em foco. São os últimos a
entrar na igreja, por exemplo, mas fazem questão do desfile entre os
presentes ao oficio religioso e vão se postar à frente em local bem
visível.
Certa vez, sem querer, mas
ao mesmo tempo querendo, ouvi pessoa comentar com outra, que teria
sido desconsiderada ao não ser convidada para se sentar à mesa
diretora em certa solenidade, por ter chegado atrasado. Notei que o
interlocutor lhe perguntou se teve motivo especial para o atraso e
ele respondeu que apenas acontecera de chegar com atraso.
Presumivelmente, a segunda pessoa não concordava com a reclamação da
primeira. É o cúmulo da deseducação tais pessoas que, convidadas por
terem algum destaque na coletividade, chegam atrasadas a solenidades
lamentavelmente também iniciadas com atraso devido ao péssimo
hábito; e ainda querem aparecer como atração extra.
Mestre de cerimônia ou
coordenador de tais sessões não tem nenhuma obrigação de abrir
espaços para retardatários, a menos que figurem entre autoridades
maiores, cujo tempo pode ser tomado por outros compromissos, não se
dispensando aos seus assessores, entretanto, a prévia comunicação do
atraso. Aqueles, privilegiados com o convite, porém "desatenciosos"
com o mesmo, que procurem outra maneira de "aparecer"!Quem se
encarrega da organização e direção dessas solenidades sabe o quanto
custa de sua atenção para que o evento transcorra sem atropelos, não
cabendo a ninguém o direito de lhe alterar tudo com "pavonices".