PONTO DE VISTA DO BATISTA

Incapacidade indisfarçável

Fico a imaginar como será este mundo (leia-se Brasil) dentro de alguns anos, se não corrigidos rumos em áreas como educação e política. Dirão que esta lista está curta demais e que outras áreas também merecem atenção, ao que retruco serem, elas, colunas mestras com as quais se harmonizam as demais na sustentação da estrutura da sociedade. Comparando-se estágio atual com o que ficou nos arquivos do tempo, constata-se quão profunda tem sido a queda no poço da decadência. Da luz do topo resta penumbra e, dentro em breve, será escuridão!

E, ao falar de comparação, vêm-me à tela da mente a figura do saudoso alfaiate e maestro Luiz Marzano, bom observador e ácido crítico do comportamento humano. Ao ver, nas ruas de Ouro Preto, início dos anos sessenta, as primeiras camisas vermelhas em corpos masculinos, ele perguntou: - Como serão as fantasias no próximo carnaval? - Se vivo ainda estivesse, a revolução processada nos hábitos quanto à indumentária não o escandalizaria, pois o que é do corpo o tempo se encarrega de fazer ajustes nos conceitos e acostumar-se ao novo na paisagem.

O mesmo não se pode dizer dos valores éticos e morais, que vestem o espírito e respondem pela condução do ser humano no meio em que vive, não importando a condição social de um e de outro. Esses valores se transmitem de pais para filhos desde o nascimento destes, mediante a educação, apropriadamente chamada "de berço", em paralelo com o princípio da autoridade, firme sem ser autoritária e violenta, formando-se então a estrutura do cidadão a ser completada na convivência e aprendizado fora do ambiente doméstico. Da mesma forma, a política (não a partidária) tem início na administração harmoniosa dos interesses familiares, no zelo pela satisfação, conforto e bem-estar do grupo, sem prevalência da vontade individual fora do que é estritamente pessoal.

Estivesse esse quadro bem consolidado, pelo menos, na média das famílias brasileiras, a sociedade não estaria a padecer de desequilíbrios manifestados por meio de corrupção crônica, na área político-administrativa, e criminalidade exacerbada ao nível de extrema violência. Como reflexo da família, a sociedade multiplica os vícios e os devolve, criando-se então o círculo vicioso, cujo rompimento se faz necessário para novamente haver equilíbrio. Mas, como?

A educação se deteriorou, deixando de formar o cidadão como resultante do ser consciente e responsável diante da vida, passando a ocupar-se tão somente do agente que produz e consome. Ao mesmo tempo, o princípio da autoridade se esvaiu na tolerância irresponsável. A busca pela excelência no conhecimento tornou-se bandeira dos trouxas, porque o que conta são os resultados palpáveis e imediatos da mediocridade, generosa mesmo com analfabetos funcionais.

Confirma-se o dito popular de que "em terra de cegos, quem tem um olho é rei", com a proliferação de espertos "qualificados" - destaques à frente de entidades ditas respeitáveis - a ostentar o que não têm. Incapazes de verbalizar idéias, juntam palavras a esmo com as quais tentam impressionar, disfarçando a incapacidade com enxertos de pensamentos alheios; apropriação indébita facilmente constatada pelo forte contraste com o meio.

Tais enxertos são como nacos de filé mignon metidos no meio de pelancas!

nbatista@uai.com.br

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