PONTO DE VISTA DO BATISTA

Incoerências petistas

Não faz muito tempo abordou-se aqui a incoerência, marca registrada do atual governo da República e sua cauda disseminada na sociedade, sob a capa dos partidos que o apóiam e dos chamados movimentos sociais. Depois de tanta "mijadas pra trás" (expressão vulgar, mas não tão chocante como as usadas por membros do governo na interação com o público), em que a quebra de ética e todas suas conseqüências se destacam na atuação do partido locomotiva governista e gabola da probidade de seu núcleo, nada mais surpreende a nação.

O relativo sucesso na economia se obteve justamente pela incoerência entre o que se preconizava nas campanhas e a prática adotada tão logo o PT se tornou governo. O tão combatido arrocho no governo anterior teve prosseguimento, em dose aumentada, na primeira fase do atual, o que possibilitou melhoras no desempenho econômico. Não se sabe a que nível de profundidade estaria a economia brasileira, se consumadas ameaças feitas enquanto o PT era oposição, e se o país resistiria às conseqüências desastrosas que, naturalmente, adviriam das medidas então defendidas. Mas, se essa prática, contrária ao pensamento disseminado pelo partido, colocou o país em melhores condições econômicas, no campo da ética a inversão de valores rebaixou o Brasil aos níveis mais baixos da escala que mede a honestidade no setor político-administrativo.

E não é a contundência verborrágica do presidente que vai devolver ao seu partido aquilo que este só teve no discurso, enquanto a ocasião do crime aos seus próceres não se fez. Toda a pureza petista foi pro brejo com o esquema do "mensalão", que continua sendo negado por seus mentores ainda com a mesma empáfia, como se os membros do Supremo Tribunal Federal tivessem apenas se divertido com histórias da carochinha. Todos os denunciados são réus no maior processo até agora julgado naquela corte!

Tirando a atenção da lama revelada nos vários escândalos que sacudiram o país, incluindo-se o que envolve o presidente do Senado Federal, a contradição salta aos olhos também em projetos que pretendem dar solução a antigos problemas. Em torno da idéia da transposição de águas do rio São Francisco com finalidade de irrigar áreas cultiváveis no Nordeste, discussões se formaram desde algum tempo, e, na oposição a ela estavam os mesmos que agora, no governo, assumem sua defesa como se sempre tivessem sido favoráveis. E à transposição, segundo matéria divulgada em jornal de grande circulação, o governo junta a construção de cinco barragens, todas em território mineiro, com a finalidade de melhorar a produção de energia, segundo uns, ou regularizar a vazão do rio, segundo outros. O certo é que todo projeto a envolver barragens e hidrelétricas tem sido alvo de combate por parte dos movimentos sociais e políticos com eles afinados. São contra as hidrelétricas, mas isso não impede os mesmos caras-de-pau de reivindicar energia de graça para mais de dois e meio milhões de famílias em Minas. Esse projeto é, portanto, outra incoerência do grupo político, eventualmente no governo deste país!

Ao custo que passa de um bilhão de reais (trinta e dois milhões só em estudos), segundo a mesma matéria jornalística, as cinco barragens inundarão mais de cem mil hectares, que incluem áreas cultivadas, assentamentos da reforma agrária, matas nativas, uma cidade e trechos de rodovia federal, cujo traçado deverá ser refeito. Aguarda-se a reação dos grupos que, sob a liderança de políticos e religiosos, têm questionado e criado obstáculos à construção de pequenas barragens da iniciativa privada, e à de outras sob a iniciativa de governos da corrente política contrária.

nbatista@uai.com.br

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