PONTO DE VISTA DO BATISTA

A incompetência impera

Se à vida em comum, após a cerimônia do casamento, fosse dada a mesma importância que merece o momento do enlace, o mundo seria outro e não estaríamos a conviver com tantos desajustes morais e sociais, causa de tantos crimes que nos aprisionam pelo medo e insegurança, mais do qualquer outra vicissitude possa nos atormentar. Tanta delinqüência juvenil, até infantil, não estaria a preocupar estudiosos e desviar atenção que poderia estar voltada exclusivamente para o desenvolvimento humano. A correção de rumo seria para casos isolados. Os presídios não estariam superlotados, e os encarcerados estariam a se recuperar para reintegração à sociedade; o medo não impediria o professor de ensinar e as drogas não seduziriam e condenariam tanta gente à morte em vida. Menos corrupção e conseqüentes escândalos na vida pública aconteceriam, se as responsabilidades inerentes à família estivessem sendo assumidas e compartilhadas na educação para o ser e não transferidas à escola que educa para o ter. Formal ou não em sua origem, a família é a base de toda estrutura social que sustenta uma nação. E é por essa razão que a formalidade se reveste do solene, do festivo com a participação da sociedade, merecendo até o gasto supérfluo, porém plenamente justificável pelo momento único, pelo menos em princípio. Tudo é preparado com o máximo empenho para o brilho, que se espera prenúncio de uma vida conjugal, se não perfeita, pelo menos, voltada para a perfeição. E, em todo o aparato, a ética pede que a participação de terceiros, voluntária ou remunerada, siga a mesma diretriz. Aos noivos, objetivo de toda a atenção, quem presta algum serviço deve o maior respeito e zelo para que o melhor seja realizado.

Não foi isso que aconteceu em recente cerimônia de casamento. A igreja, lotada pelos convidados das famílias que se uniam por intermédio dos jovens nubentes, oferecia o clima propício ao momento com tudo funcionando de acordo com o esperado. O noivo entrou solene com sua família e seus padrinhos. A noiva, como não podia ser diferente, chamou a atenção com sua beleza e simpatia, ornadas pelo zelo e competência de quem a vestiu, penteou e maquiou. Infelizmente, enquanto os olhos se fartavam com o cenário prazeroso dos dois cortejos, a música indispensável martirizava os ouvidos pela desafinação da voz em evidência. A cerimônia teve início em tom solene, conforme se recomenda, e a voz continuou a desafinar nos números que se seguiram. Chegado o momento da tradicional Ave Maria, aconteceu o desastre: a voz se fez ouvir em tom diverso do instrumento acompanhante, sem que um ou outro corrigisse a falha até o final. Quando se pensava já ter acontecido o pior, na música seguinte, quem cantava "caiu n’água". Explique-se aqui que, no jargão musicista, "cair n’água" significa interromper uma execução musical por falha ou incompetência. Lamentável, sob todos os aspectos, o desastroso desempenho de quem cantava!

Pelas razões ditas acima, a quem se propõe prestar serviço de tal natureza diria que a música é o coroamento de todo o aparato em volta do novo casal, que sobe ao altar para dizer o "sim" e, assim, sacramentar-se pelo matrimônio. Não é preciso coro e grande orquestra. Simplicidade com zelo e competência costuma fazer mais efeito! Se não bastasse tudo isso, Ouro Preto, por tradição, é terra de músicos e de boa música. Ela é um dos destaques não só de Ouro Preto, mas de toda a região, onde mais talentos só não são revelados porque este país é miserável com a cultura.

E onde a potencialidade e os valores culturais não recebem estímulo sobra espaço para a mediocridade!

nbatista@uai.com.br

 

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