PONTO DE VISTA DO BATISTA

Ainda há quaresma?

A pressão pelo consumo de um lado e a hipócrita negação do direito à propriedade de outro têm subvertido princípios que, incontestavelmente, são a base da harmonia social, condição necessária para que não sofra quebra a busca do bem-estar pelo gênero humano. Incrementa-se a cobiça, rompe-se o dique do bom senso e do respeito gravado na consciência. E temos aí o furto descarado sob todas as formas imaginadas por seus agentes e o roubo tinto de sangue a fazer do estado brinquedo do rato.

A banalização inconseqüente de tais tipos de crime chegou a tal nível que, à primeira vista, até parece terem sido abolidos do decálogo mosaico, como faz supor anedota a circular na internet. Ela se refere à origem do corte dado à haste do algarismo sete, muito útil para que dúvida não haja em sua grafia, mas, hoje, suprimido sem razão de ser. Como crime não é, dele ainda fazem uso uns poucos, incluindo-se este escriba.

Mas, conta a anedota que Moisés, ao apresentar as tábuas da Lei de Deus, ia lendo cada um dos dez mandamentos, sem que qualquer manifestação contrária houvesse por parte de seus liderados, até que, ao ler o sétimo mandamento, "não furtarás", a turma de "amigos do alheio" gritou: - corta o sete! Pois bem, a mesma piada circula na internet mas, em lugar de "não furtarás" está o "não desejarás a mulher do próximo" que, na verdade, é o nono mandamento. Será que até aos dez mandamentos teria chegado a permissividade no que se refere ao avanço sobre o que é de terceiros? Ainda que em conteúdo de anedota, tal hipótese deve ser descartada, se lembrarmos que a historieta não é nova, assim como muitas outras recicladas ao longo do tempo. Presumo que versão mais antiga teria mesmo tido como foco o algarismo nove, que também já teve um travessão a separar sua haste em duas secções. Sim, muito antes que suprimissem o corte do sete, também o nove era cortado; isso, para diferenciação diante do seis invertido. Tal fato desapareceu da memória do povo, mas manuscritos antigos confirmam o uso. Caído o travessão do nove, a atualização da anedota ficou pela metade, porque deixaram o mesmo mandamento correspondente ao nono.

Como o assunto lembra religião e estamos na quaresma, volto a questionar informações relativas ao período que ela abrange. Quaresma significa quarenta e os dicionários o confirmam, acrescentando que são contados da quarta-feira de cinzas ao Domingo de Páscoa. Por aí, deduz-se que o primeiro, não conferindo o período, registrou a besteira, e os demais seguiram pelo mesmo caminho. Também o Lello (editado na cidade do Porto/Portugal) diz que a quaresma é o período compreendido entre a quarta-feira de cinzas e a Páscoa, mas não diz que são quarenta dias. Pelo menos, não erra na contagem. Qualquer um que sabe contar, constata que o período dos quarenta dias termina no Domingo de Ramos (ou da Paixão) e não na Páscoa. A Semana Santa ou Semana da Paixão é um período à parte e não está dentro da quaresma. Aliás, a quaresma é o período preparatório para a vivência da Semana Santa, que culmina na Páscoa, data magna do catolicismo.

Mas o curioso é que há padres a cometer o mesmo erro. São unânimes quanto à contagem dos quarenta dias a partir da quarta-feira de cinzas, mas se dividem quanto ao término do período; uns a dizer que o fim da quaresma é na quarta-feira da Semana Santa, e outros no dia seguinte, na quinta-feira. Não há explicação para tamanho equívoco por parte de tanta gente! Se definem outro dia que não o Domingo de Ramos como término da quaresma, que deixem então de dizer que quaresma significa quarenta dias. Ora bolas! Já não se fazem quaresma, dicionários, e nem padres como antigamente!

nbatista@uai.com.br

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