A sociedade está
um tanto atordoada com a maneira como os salesianos transferiram o
imóvel a terceiros, sem antes discutir possibilidades de o mesmo
continuar a servir à educação, e assim dar prosseguimento, ainda que
por mãos de outrem, à missão que a congregação ali iniciou, no ano
de 1896.
Não se discute a
legalidade do negócio, pois documentação hábil a congregação
possuía, embora persistam dúvidas quanto à origem, pois se os
imóveis vieram da coroa imperial ou do patrimônio pessoal do
imperador, a lógica diz que tais imóveis pertenceriam à União e não
à unidade federativa onde se localizam; logo não caberia ao governo
mineiro a doação a terceiros. E, ao passar a escritura definitiva, o
governo errou por não vincular a propriedade ao uso, de acordo com
os objetivos primevos, ou seja, para a educação. Então, sobre o
imóvel, com vício de origem ou não, os salesianos detinham o direito
legal de fazer dele o quisesse. Mas, nem sempre o legal é moral.
Embora não mais estivesse vinculado à educação, cultivava-se a
esperança no seio da sociedade, de que os laços com ela ainda seria
reatados.
E na comunidade
cachoeirense mais ainda, pois esta criou com as
Escolas Dom Bosco e o espaço por elas ocupado, forte vínculo de
identidade cultural. Várias gerações, ainda que não beneficiadas
pelo ensino regular, se sucederam no aprendizado dos valores maiores
da vida, pela frequência ao Oratório Festivo São João Bosco (esta
era a denominação), onde a catequese de mãos dadas com o lúdico e
com a arte traçou caminhos que, hoje, família e juventude não têm
encontrado. Comunidade local e comunidade salesiana se integravam
nos momentos mais significativos. As paróquias com matriz em Glaura,
em São Bartolomeu e em Miguel Burnier tiveram como titulares padres
salesianos daquela casa. A população cachoeirense se sentia
salesiana também, e esse sentimento é comprovado no cartório do
Registro Civil com inúmeros assentos de "João Bosco", "Domingos
Sávio", "Maria Auxiliadora", "Maria Mazzarello", "Maria Margarida",
nomes que marcam a influência dos "filhos de Dom Bosco".
Por tudo isso, a
população cachoeirense se sente traída, deixada de lado quando
deveria ter sido colocada ciente do que se pretendia e consultada
quanto a possível alternativa. Nem por isso, entretanto, a
congregação deve ser demonizada, como fazem alguns poucos,
referindo-se a ela de forma grosseira e deselegante. Cachoeira do
Campo se sente magoada, isto sim!
Liderada pelo
pároco, padre Afonso Henrique de Figueiredo Lemos, de quem partiu a
iniciativa de trazê-los, a comunidade os bendisse e deles se ouvia,
em contrapartida, algo como: "Deus caprichou ao fazer Cachoeira do
Campo, mas acabou perdendo a receita". Bem diferente foi quando se
abriu o Colégio Santa Rosa, em Niterói-RJ, a primeira obra salesiana
no Brasil.
Os primeiros
contatos entre D. Pedro Maria de Lacerda, bispo do Rio de Janeiro, e
o próprio Dom Bosco, Turim/Itália, se fizeram em 1875, e se
prolongaram até 1883, por cartas e visitas recíprocas do bispo e
representantes da congregação salesiana. Houve muita relutância,
pois os salesianos ao visitar o Rio constataram ambiente hostil sob
vários aspectos. Fisicamente, a cidade era insalubre, totalmente
carente de saneamento básico, extremamente imunda, mal cheirosa
(faltava higiene no interior das casas e, nas ruas, carcaças de
animais apodreciam livremente), e constantemente acossada pela febre
amarela. Sob a ótica dos visitantes, a população era devassa,
extremamente rude, carente do mínimo de civilidade, chegando a ser
agressiva em relação a estrangeiros. Mas, a escravatura era ainda a
maior chaga social, verdadeira vergonha nacional. A coroar todo o
quadro negativo à vista dos religiosos salesianos, havia forte
anticlericalismo, fomentado pela filosofia positivista e difundido
pela imprensa francamente anticlerical. Foram oito anos de
expectativas da parte do bispo do Rio de Janeiro, que chegou à
desistência, convicto de que Dom Bosco teria riscado o Brasil dos
planos de expansão de sua obra. O Colégio Santa Rosa foi aberto em
14 de julho de 1883 com a chegada do grupo salesiano,
confirmando-se, a partir de então, as extremas dificuldades para seu
funcionamento, causadas pela intolerância, preconceito, sentimentos
antirreligiosos e má vontade. Ao lado dos pioneiros do Colégio Santa
Rosa estavam apenas grupo de bons católicos, dentre os quais
surgiram os primeiros cooperadores salesianos e os incansáveis
vicentinos, da Sociedade São Vicente de Paulo. Agressividade e
intolerância explodiram, de fato, nos desfiles carnavalescos do ano
seguinte, 1884, quando carros alegóricos zombeteiros, seguidos pela
turba a proferir insultos contra os dirigentes do Santa Rosa, foram
a atração máxima.
Em Cachoeira do
Campo, encontraram a mansidão da comunidade agradecida, de coração e
mãos abertas, pronta a ouvir e aprender o que tinham para ensinar;
fatores que todos esperavam pudesse sensibilizá-los na hora de
fechar a casa e entregar as chaves a outrem. A comunidade não obteve
deles a mesma consideração, a eles dada, quando aqui chegaram!
FONTE:"Memórias
dos Cinco Lustros das Escolas Dom Bosco" e "Os Primórdios da Obra
Salesiana! Volume I – Riolando Assi