PONTO DE VISTA DO BATISTA

Somos ou não indisciplinados?

Assim como na folclórica polêmica em torno de quem teria surgido, o ovo ou galinha, poderíamos estabelecer discussão em torno de quem é o primeiro indisciplinado: o governo ou o povo brasileiro. O governo, relapso com tudo, que não exerce a autoridade como devia, que não cumpre leis por ele próprio estabelecidas, é fruto do povo, dito propenso à avacalhação? Ou o povo é avacalhado  porque o governo o é em primeiro lugar? O fato é que a fama de o brasileiro ser indisciplinado já correu mundo. Em nível de governo já tivemos o desprazer de ouvir que "o Brasil não é um país sério", frase atribuída ao general Charles de Gaule, ex-presidente da França. Quanto ao povo, a pequena minoria privilegiada que salta fronteiras e cruza oceanos leva mostras de nossa malsinada característica aos quatro cantos do mundo. Na questão de horários, por exemplo somos um desastre. O relógio, para outros povos, acessório importante que lembra o momento certo dos compromissos, no caso brasileiro serve para adornar o pulso ou como símbolo de status social, quando sofisticados e valorizados ao peso do ouro; aliás, uma boa isca para os "lalaus" da vida. Em alguns países, brasileiro se assusta com os horários picados em até um minuto, pois aqui o máximo a que nos acostumamos é um quarto de hora ou quinze minutos; se o atraso no transporte trinta minutos aqui é normal, lá fora perde-se a condução por um minuto. O cumprimento do dever é deixado para o último dia, última hora e último minuto. E há reclamação se o prazo não é prorrogado.

Não é à toa que o Brasil é campeão de acidentes de trânsito. Se o governo não cuida de vias e rodovias, deixa de exercer punir por infrações mais graves, o povo também deixa de cumprir sua parte que é o de respeitar as leis inerentes ao setor. Tabuleta de trânsito impedido, para alguns não quer dizer nada. O condutor sai do veículo afasta o obstáculo legal e avança sem cerimônia.E não é somente o motorista, o dono do veículo, enfim quem está montado sobre rodas. O pedestre também tem sua culpa na indisciplina generalizado trânsito. Quem duvidar que preste atenção ao comportamento do povo ao cruzar uma via de grande movimento; observe quantos usam as passarelas, antes cobradas com protestos violentos, queima de pneus, interrupção do trânsito, etc. Diversas vezes vi o trânsito se interromper momentaneamente para a passagem de um deficiente físico, e, este mesmo pedestre sair correndo depois de conseguir seu intento. Em país disciplinado, esse tipo de comportamento seria punido com prisão. Aqui os autores recebem as palmas da platéia. Faço estes comentários depois de saber, em menos de trinta dias, do segundo capotamento de veículo atingido pelo deslocamento de ar provocado por turbina de avião em processo de decolagem. O fato se deu num mesmo local, no Rio. Há agora uma discussão inócua em torno do semáforo (farol para os paulistas), se ele estava aberto ou fechado para a passagem de veículos (e de pedestres), porque, na verdade, o cidadão de bom senso dispensa a tal sinalização. Só um imbecil ousa atravessar a barreira provocada pela turbina de um avião ao decolar. No primeiro caso, o autor pagou com a vida. No segundo, depois de sair do hospital, o pretenso super-homem (ou mulher, se for caso) deveria receber punição. O local está sinalizado, quem ali transita tem conhecimento do perigo, mesmo porque os aviões não estão escondidos; e, pelo barulho ensurdecedor, dá para perceber o que acontece naquela esteira de gases expelidos.

O que aconteceu no Rio de Janeiro pode ser comparado ao hipotético caso de uma pessoa que, conhecendo as propriedades da formicida, tomasse uma pitada só para experimentar. E, pior: mesmo depois de uma morte, houve quem tentasse novamente. Para se prevenir contra a ocorrência de mais tragédias, há quem sugere o fechamento daquela via. O que deveria estar fechada é a boca desses palpiteiros. Cerceamento da liberdade da maioria não soluciona problemas causados pela indisciplina de uns poucos

nbatista@uai.com.br

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