Falam que este escriba é
"mal humorado e só sabe reclamar, reclamar, reclamar!" Mas, em se
tratando de política, neste país, mesmo conservando o bom humor,
como é próprio do brasileiro que ri da própria desgraça, não dá para
cidadão consciente deixar de se indignar e reclamar mesmo. Até que
pelo tamanho do território tupiniquim e volume da massa humana que o
povoa e, principalmente, pelo que políticos fazem com aquela massa,
o Brasil está mudo, calado, embatucado. Talvez, amordaçado!
Quando se pensa já ter
visto ou ouvido de tudo, eis que senhora elevada ao cargo de
vice-prefeito de Conceição do Rio Verde, sul de Minas, confessa-se
incapacitada para a administração do município, quando convocada a
assumir o cargo de prefeito, cujo titular fora cassado. O insólito
da frustrante confissão agravou-se com seu apelo ao cassado para que
a auxiliasse na administração. Ora, o prefeito foi cassado por
improbidade administrativa; portanto, no universo de pessoas
disponíveis para tal função, é o menos indicado para assessorá-la.
Mas, além da alegada incapacidade, faltou-lhe também bom senso na
escolha do que dizer diante da nova circunstância. Menos mal para o
eleitorado diante de transparência acidental, incluindo-se
desnudamento de uma situação político-partidária.
A situação daquele
município, tendo à frente da administração municipal pessoa,
confessadamente incapacitada para o exercício do cargo, por mais que
choque à opinião pública, não é incomum no Brasil. O que falta é
transparência, porque, ao contrário do caso de Conceição do Rio
Verde, tornado nu com a espontaneidade da prefeita, na maioria dos
casos o "raposismo" político fala mais alto ou, melhor, silencia e
esconde os fatos. Incapacidade administrativa de grande parte dos
alcaides tupiniquins é muito mais comum do que se imagina, mesmo
porque no jogo de interesses políticos eleitoreiros, nem sempre é
conveniente a eleição do político mais capaz, ou de fato interessado
no poder. Por isso, elege-se alguém que se disfarce bem e que seja
manipulável, de acordo com a vontade do grupo de fato dominante,
pois no sistema político partidário vigente, quem manda são os
grupos que detêm os partidos nas mãos, não importando muito quem é
eleito para o cargo. O cargo de vice tanto pode ser isca para
captação de votos para o titular, não tão bem cotado entre
eleitores, como também pode ser ornamento, apenas para compor a
chapa de acordo com a lei. E este parece ter sido o caso de
Conceição do Rio Verde.
São os furos do sistema
apregoado e laureado como democrático, mas, na verdade, uma farsa. O
eleitorado não escolhe o melhor dentro da sociedade política capaz,
mas o que as cúpulas partidárias querem que seja eleito. São
apresentados pratos feitos ao eleitor e este escolhe entre aqueles
pré-escolhidos pelo sistema. E o eleitorado, ludibriado no ato da
escolha, leva nas costas a culpa pela eleição do mau político, todos
acusadores se esquecendo de que até chegar às urnas, nenhuma ação do
processo eleitoral tem a participação do eleitor.
Para se candidatar, a lei
exige filiação a um dos partidos, mas, eleito, o político pode
romper o vínculo partidário e exercer o mandato, não se lixando para
o eleitor que o escolheu dentro de determinado partido, embora este
muito não conte para o eleitor.
Conhecido político, que
foi presidente da República (ainda que por acidente) acaba de
ingressar em partido dos muitos existentes, depois de longa
temporada desvinculado de qualquer um. Sua afiliação, cobiçada por
diversas legendas por ser considerado puxador de votos, se fez agora
porque, em suas pretensões políticas, consta a candidatura a uma
cadeira no Congresso Nacional, no próximo ano. Assim como em outras
vezes, é quase certo que, se eleito, o partido será mandado às
favas. Para que então partido, se o eleitor visa apenas o candidato
e o mandato pode ser exercido fora dele?
Candidaturas apartidárias
deveriam ser permitidas como teste, proibindo-se afiliação do
detentor desse tipo de mandato durante a vigência deste e, do outro
lado, a desfiliação ou troca de partido, sob pena de perda do
mandato. Mandatos apartidários ficariam sob o crivo do eleitorado,
que teria o poder de cassá-los sob a chancela da Justiça Eleitoral.
Seria o princípio do fim dos partidos políticos.