PONTO DEVISTA DO BATISTA

Iniciativas salutares

Ainda de forma acanhada, Ouro Preto dá os primeiros passos para ter de fato programação, que preencha as necessidades de lazer da população local e, ao mesmo tempo responda à demanda do turismo por atrações que falem da cultura receptiva. Por muitos anos, desde que percebida a incolumidade da cidade, graças ao abandono de que foi vítima ao se transferir a capital de Minas para Belo Horizonte, Ouro Preto viveu o turismo de aventura, praticado por poucos com tempo, disposição e dinheiro para, em algumas horas, conhecer um pouco das peculiaridades locais, visitar uma ou duas igrejas e retornar satisfeito por ter conhecido parte do que estava prestes a desaparecer sob a fúria da transformação cogitada pela modernidade.

Favorecida a preservação pelo abandono governamental, em decorrência dos arroubos republicanos em torno do novo e moderno, visão mais crítica pró-reconhecimento do conjunto urbanístico veio mais tarde consolidar a idéia de preservá-lo como patrimônio nacional. Mas o turismo de aventura continuou e, só há poucas décadas, iniciou-se a expansão da rede hoteleira - antes restrita a dois ou três estabelecimentos - e o surgimento de restaurantes. Entretanto, o turista aqui chegava e, fora do roteiro das igrejas e museus, continuava sem o que ver e fazer, a menos que, ainda dotado do espírito de aventura, se arriscasse a passeios em regiões como Cachoeira das Andorinhas e Pico do Itacolomi, por exemplo, ambas então dominadas por malfeitores de plantão contra visitantes. E demorou a esses pontos turísticos o momento de atenção com a requerida programação de visitas e segurança para o visitante, assim como demorou a inclusão de eventos culturais, tais como concertos e espetáculos teatrais, para melhor preencher o tempo de estada do turista em determinadas épocas do ano.

Mas o turismo de hoje pode ir além da simples visita, pois quem viaja com intuito de se enriquecer culturalmente acalenta o desejo de interagir com os locais, sentir-lhes as aspirações, conhecer-lhes hábitos e costumes, enfim, conhecer de perto o agente daquele modo de viver.

Voltado para a contemplação da natureza, descanso, lazer e caminhada ao ar livre, o Horto Botânico pode ser o início como meio dessa interação, que não se processa nas igrejas e museus visitados, reunindo no mesmo tempo e espaço a população local e o visitante, o que enseja a troca de informações e conhecimentos. Falta ao logradouro a prevenção contra o vandalismo, atividades ilícitas e violência, providência que, se não tomada imediatamente, poderá lançar o projeto à conta das previsões pessimistas de seus opositores. Mas, a iniciativa é louvável e poderá contribuir na educação quanto ao verdadeiro turismo e sua vivência, que se quer para Ouro Preto e região.

O segundo fator positivo para a interação desejada é o projeto "Arte na Rua", a mais nova iniciativa idealizada para a Rua São José, aos domingos, reunindo naquele espaço artistas plásticos e artesãos, enquanto o comércio de bares e restaurantes dá o toque culinário. Por motivos óbvios, o "Arte na Rua" só pode ser programado para se realizar no período da estiagem, entre maio e agosto, mas a iniciativa promete, desde que não resvale definitivamente para os excessos quanto o volume de som.

Os organizadores do evento pecam ao permitir a sonorização de apresentações musicais, esquecendo-se do restrito espaço na largura da rua e a proximidade do público. A Rua São José, em toda sua extensão, incluindo-se o Largo da Alegria, é propícia ao uso de instrumental acústico e da voz natural, não havendo razão para uso da parafernália eletrônica. O evento é mais agradável quando se ouve música e conversamos naturalmente.

O curioso é que criticam as igrejas evangélicas, dizendo que os crentes têm Jesus como surdo, por promoverem cultos tão barulhentos. E quase sempre os críticos são os mesmos que promovem barulheira, talvez a pensar que somos todos surdos ou a desejar que nos tornemos!

nbatista@uai.com.br

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