Passado o sufoco
causado pelas chuvas - ainda não o perigo - seria hora de repensar o
destino da cidade de Ouro Preto com vistas à sua preservação, para
futuro mais distante, em paralelo com a segurança e bem estar de
seus habitantes. Digo "seria" porque, assim como em outras ocasiões
e em qualquer parte deste país, paliativos são respostas dadas às
necessidades, que gritam por solução definitiva. Digo "seria" porque
o "repensar" que imagino não creio se encaixar no ora aceitável por
parte da população mais influente e conservadora; posição que,
paradoxalmente, entra em conflito com inovações, que julgo
necessárias para a almejada preservação.
O que às vezes
digo neste espaço pode desgostar pessoas, mas isso é o que menos
interessa, porque não escrevo para agradar a quem quer que seja. Se
o meu pensamento se afina com o de outros, tudo bem. Se não se
afina, paciência. Também estou consciente que corro o risco de
sofrer "linchamento moral" por dar "pitaco" em assunto que seria da
alçada exclusiva de especialistas, mas se tanta gente de fora dá
palpite em Ouro Preto, por que ouropretano não pode? Embora
classificado como "da roça" por parte dos ditos "trezentões" sou
ouropretano, porque Ouro Preto é todo o município e não somente o
distrito sede municipal.
De certa forma,
a cidade de Ouro Preto já não pertence aos que nela vivem e isso há
que se reconhecer, abrindo mão de algumas prerrogativas, como morar,
instalar-se, transitar livremente em qualquer parte da urbe. A fama
que lhe deu vários títulos, coroados por fim com o de Patrimônio
Cultural da Humanidade, cobra seu preço e há que pagá-lo, para que
futuras gerações não amaldiçoem o orgulho e intransigência dos seus
ancestrais. O desejo esboçado por alguns ouropretanos de ter a
cidade fechada numa redoma, talvez, seja mesmo necessário
concretizar, não para deixar de fora os "de fora", porém os próprios
nativos, pois não há como combinar a vida moderna, dinâmica e bem
estar da população com segurança em que entram todo o frágil acervo
da cidade, assentado em solo instável.
De forma
espontânea, vê-se nos últimos anos o esvaziamento das ruas mais
centrais como área residencial, ficando ali tão somente o comércio
leve, pequenas lojas, uma vez que supermercados também se afastaram
do centro. O próximo seria a transferência das agências bancárias
para outro local e o fechamento do centro histórico ao tráfego de
veículos automores, exceção a se fazer ao serviço de entregas em
horários predeterminados. O centro histórico deveria se voltar
exclusivamente às atividades voltadas ao turismo que, quer queiram
ou não, é o destino lógico para a cidade de Ouro Preto. Ao mesmo
tempo, faz-se necessário o reassentamento de famílias ocupantes de
áreas das mais perigosas nas encostar, estímulo à mudança de outras
de áreas com menor risco e reserva, assim como áreas de preservação
ambiental, de pontos onde se tornaria proibido construir.
A perdurar o
quadro atual de riscos, que teve início com abertura da rodovia
(anos cinquenta) cujo trecho urbano é a Rua Padre Rolim, todas as
construções na região da montanha terão seu risco aumentado a cada
ano, por ocasião do período chuvoso. O primeiro grande deslizamento
ocorreu em 1960 (nas mesmas proporções do último, dia 3 de janeiro)
e outros menores, porém igualmente desastrosos se seguiram.
Portanto, a culpa original pela série de deslizamentos na Rua Padre
Rolim é do governo do Estado, responsável pela implantação da
rodovia e consequente acesso que, na opinião deste leigo, nunca
deveria ser naquela região. Em segundo lugar vêm as autoridades e
políticos locais, que fizeram vistas grossas ou estimularam a
ocupação e, por fim, vem a imprudência humana.
No momento, para
que a cidade se transforme sem perder suas características, há que
alargar os horizontes, desviar um olho do próprio umbigo e dirigir o
olhar para além dos limites urbanos, alcançando os 1.245 quilômetros
quadrados do município de Ouro Preto. Política de desenvolvimento
integrado deveria contemplar todo o município, lembrando que cada
distrito, afora o distrito sede municipal, é unidade merecedora da
mesma atenção e nenhum deles constitui apêndice da cidade, ou a ela
pertence. Cada um é parte distinta da sede e a soma de todos é que
faz o município. A observação vale para todo o Brasil, cujas
administrações municipais supervalorizam os distritos sede (cidades)
em detrimento dos demais distritos que, muitas vezes, amargam o
abandono. No caso de Ouro Preto, atenção especial aos demais
distritos, cuidando de ali estabelecer serviços públicos e estimular
a fixação de suas populações, é caminho razoável para conter o
inchaço da cidade, deixando-a mais segura para todos e mais livre
para as atividades turísticas.