O intocável
Quem nunca ouviu falar que bom cobrador é mau
pagador? Não o cobrador funcional, que cumpre sua missão à risca e
sob o risco de grosserias e agressões por parte de pilantras que não
se vexam de dar o cano no semelhante, bancar valentia e ainda contar
prosa. O mau pagador neste caso é aquele eventual cobrador do pouco
crédito que tem. Deve um caminhão, não paga, mas se lhe devem um
"bico de alfinete", joga o mundo no chão! Se lhe mencionam a
dívida, sai pela tangente com qualquer desculpa. É caso perdido,
irrecuperável. O barulho feito na cobrança é uma forma engendrada por
seu espírito desleal, na tentativa de recuperar um pouco do respeito
perdido com os calotes dados. O mesmo fenômeno se observa com
zombeteiros e certos críticos. Há indivíduos que primam pelo deboche,
não largando o pé de sua vítima por qualquer "deslize"
cometido aos seus olhos. Mas, ai de quem ouse lhe dar o troco com a
mesma moeda. É briga na certa. O folgado se julga com direito de rir à
custa de terceiros ou de lhe fazer duras críticas, mas se arma contra
tudo e contra todos que lhe façam o mesmo.
No terreno público da crítica e da gozação, em
qualquer lugar do mundo, a classe eleita como alvo é a dos políticos.
Nem mesmo nos regimes totalitários, os donos do poder escapam das
piadinhas que correm nos subterrâneos da oposição, contadas a baixa
voz, cuidando-se para que não caiam em ouvidos traiçoeiros. Isso faz
parte da natureza humana. A crítica ferina, a zombaria, a gozação,
constituem os "ossos do ofício" de pessoa pública e não há
como escapar. Há, sim, como conviver. Bons políticos – pelo menos no
sentido da tolerância em relação a críticas – conseguem se situar
bem diante da opinião pública porque exercem a tolerância sobre a
crítica e a zombaria, embora estas possam incomodá-los. Juscelino
Kubitscheck não chegou à Presidência da República somente por ter
sido bom governador, gerador de quilowatts e abridor de estradas em
Minas Gerais, porque se tivesse sido tudo isso e turrão contra
críticos e piadistas, o Rio de Janeiro ainda seria a capital da
República! Chegou-se a fundar jornal – "Binômio" – com o
objetivo específico de criticar JK e sua atuação à frente dos
destinos de Minas. O que o "Binômio" dizia do Juscelino
extrapolava o pensamento de seus mais ferrenhos adversários políticos,
mas JK não estava nem aí para o que diziam. Apenas ria. Certa vez
"Binômio" chegou a ser recolhido, por ordem do secretário de
Segurança Pública porque estampou na primeira página: ‘‘JUSCELINO
FOI A ARAXÁ E LEVOU ROLLA’’. Rolla era o sobrenome de um
empresário, amigo de JK, mas estava clara a intenção maldosa do
editor. Um mandado de segurança repôs o jornal e na semana seguinte
("Binômio" era semanal) saiu outra manchete: ‘‘Juscelino
quis por rolha no Binômio’’. Na verdade, JK não teria feito nada
para impedir a circulação do jornal. Famoso por suas sátiras, certo
compositor e "showman" fez sucesso com músicas que mexiam com
o presidente JK. Nunca foi questionado pelo então seu alvo predileto!
Não se fazem mais políticos como antigamente! E
parece que com JK encerrou-se a era dos políticos permeáveis a
criticas e piadas. Na atualidade, torna-se corriqueiro o fato de
recorrerem à Justiça porque alguém os chamou de feios!
Entre eles há quem faça as maiores estrepolias,
atropele as regras, agrida com o verbo e até promova, em ato cívico, o
que proíbe o recato masculino. Ao fim de tudo investe contra a
crítica, que outra coisa não é a reação da opinião pública aos
seus atos. Assume pose de bom moço, arvora-se em democrata e defensor
da liberdade, mas uma liberdade que deve ser só sua, de agredir e ferir
seu semelhante. A liberdade que defende é verde por fora e vermelha por
dentro! Vamos ver se seus pretendidos direitos, colocados na balança,
pesam mais que as insanidades já cometidas. Enquanto isso, vá plantar
melancia, vá!