PONTO DE VISTA DO BATISTA
Irresponsabilidade no ar?
Receber notícia da morte
de alguém próximo é sempre um choque, em quaisquer circunstâncias.
Se tragédia envolve o fato, aí a comoção assume proporções que
transcendem limites do parentesco e círculo social, evidenciando-se
então a insatisfação diante da presunção humana da "morte antes da
hora", causada por forças oponentes externas.
A tragédia de aviação
acontecida em plena selva amazônica, ao norte de Mato Grosso, é um
desses eventos dramáticos cujo abalo emocional vai muito além do
círculo pessoal das vítimas. Cento e cinqüenta e quatro pessoas,
presumivelmente em gozo de boa saúde, tiveram suas vidas ceifadas
durante, talvez, a realização de um sonho em forma de viagem, no
gozo de férias, no desenvolvimento de trabalho importante, na visita
a familiares e amigos, enfim, na realização de algo ligado à vida. A
brutalidade dessa interrupção, atingindo diretamente mais de centena
e meia de famílias, fez estremecer até onde ainda existe um fiapo de
sensibilidade humana. Não há como ser indiferente diante do quadro,
que se descortina em nossa imaginação, ainda que muito pobre em
comparação com a realidade dos últimos momentos daquelas cento e
cinqüenta e quatro pessoas. E à profunda consternação se soma
indignação com a possibilidade não ter sido uma fatalidade causada
por meios alheios à vontade humana, como acontece na maioria dos
acidentes da aviação. Se confirmadas as suspeitas levantadas na
investigação em curso, estaremos diante de raro caso de acidente
causado por falha humana distante dos momentos de pouso e decolagem,
e pior, por negligência, para não usar termos mais pesados.
Até agora, tudo indica que
a aeronave menor, em viagem para os Estados Unidos, voava acima da
altitude para ele determinada no plano de vôo naquele ponto,
mantinha equipamento de segurança anti-colisão desligado, e não
atendeu a sete chamadas de advertência feitas pela torre de comando.
A fatalidade provoca dor, mas esta diminui ao longo do tempo por ter
causa estranha à vontade humana. O mesmo não acontece, quando a
causa se assenta em falha ou negligência. À tristeza se junta
revolta pela perda irreparável, que se julga ter acontecido "antes
da hora".
A tragédia na Serra do
Cachimbo tem todos os ingredientes do segundo caso, para ficar na
memória nacional como exemplo do pior, quando desrespeitadas normas
pré-estabelecidas de segurança coletiva. E não fica só nisso, porque
o jato estrangeiro voava sob o comando de profissionais
norte-americanos, nacionalidade que se sabe orgulhosa da organização
de sua sociedade, bem como de seus cidadãos, tidos como bons
cumpridores de leis, regras e regulamentos pré-estabelecidos.
Entretanto, parecem não ter o mesmo comportamento fora de suas
fronteiras, prevalecendo, sim, a arrogância de uma pretensa
superioridade sobre todos. Declarações insultuosas do passageiro
jornalista contra o controle aéreo brasileiro, em conflito com o
dito às nossas autoridades nos primeiros momentos, sugerem conluio
com os tripulantes e tentativa de mascarar a verdade, molecagem até
aqui conhecida somente entre motoristas irresponsáveis, que tentam
escapar à lei.
Em resposta a isso e em
respeito às cento e cinqüenta e quatro vítimas, respectivas
famílias, e à nação, espera-se rigoroso cumprimento da lei para o
caso, se confirmadas as suspeitas levantadas. Que não se curvem
governo e guardiães das leis brasileiras diante de quaisquer
tentativas de livrar possíveis culpados!
nbatista@uai.com.br