Isca não comida
Frustrado o fanfarrão das
Américas, que cria já ter sob controle pensamento e vontade política
do povo venezuelano, e surpresos nós outros que não rezamos por sua
cartilha, mas críamos que ele conseguiria o "sim" popular para seu
projeto megalomaníaco e totalitarista, a história segue seu curso,
e, quem por ela navega sob o livre arbítrio há que estar atento e
não se deixar seduzir por ilusionismos destacados às margens.
Da divisão em tribos e
grupos, desde os tempos das cavernas, em que predominava o
patriarcado, a espécie humana marchou pelo tempo sob tipos diversos
de lideranças e governos marcados pelo personalismo, até chegar ao
atual modelo, ainda longe do ideal, praticado na maioria dos países.
Cheio de manobras, maracutaias, corporativismos e vícios próprios da
política, o sistema conhecido ainda é um arremedo do que deveria ser
democracia, mas tem a virtude de, não convergindo para
personalismos, ter tudo ou quase tudo decidido mediante discussão em
parlamentos representativos da sociedade.
Contudo, como a lembrar
que a espécie carrega o gene da prepotência, surtos totalitaristas
ou algo próximo podem eclodir, de tempos em tempos, a exemplo da
experiência pela qual passa o país vizinho ao norte. Por alguma
circunstância, quase sempre engendrada pela falta de verdadeiras
lideranças políticas, de repente surge alguém que, a exemplo dos
charlatães, anuncia ter o remédio que cura todos os males
político-sociais do país. Como não aceita discussão em torno do que
pretende, se cerca de cuidados para não ser contrariado
publicamente, vale-se da propaganda ao extremo para divulgar suas
idéias e cerceia na mesma proporção o pensamento contrário. Ele se
arvora em "salvador da pátria", assim deseja ser visto e considera
exemplos fracassados do mesmo tipo político como frutos de
inteligência menor. Ele é o que outros não foram! Como
característica que o diferencia um pouco dos demais, o presidente
venezuelano se vale com mais ênfase da consulta popular, sob a forma
de eleições, plebiscitos, referendos, o que nesta parte do mundo,
deformado politicamente, é impingido matreiramente pelos mais
interessados e aceito pelo povo mal preparado como sinal de
democracia plena.
Na recente consulta feita
ao povo venezuelano, medidas consonantes com a pretendida
implantação do socialismo no país incluíam a candidatura do
presidente em pleitos sucessivos sem qualquer limite, além da
concessão de mais poder ao Executivo. Fora do contexto das reformas
e como agravante à suspeita de implantação da ditadura, no momento
mais propício, o presidente venezuelano, em diversas ocasiões, deu
mostras contrárias à liberdade de imprensa e de opinião.
Carentes de educação a
lhes limitar a satisfação de outras necessidades também de natureza
básica, as populações latino-americanas têm compreensão limitada
sobre questões políticas mais profundas e são vulneráveis à
manipulação, que não deixa de haver também por meio de consultas
populares direcionadas por campanhas publicitárias falaciosas.
Considerado o forte apelo à classe trabalhadora sob a forma de
redução da jornada de trabalho, dentro do pacote posto em votação,
temia-se pela vitória do "sim" e conseqüente desvio da Venezuela por
caminhos que não levam ao céu prometido pelo marxismo. E foi aí que
se fez a surpresa a observadores do importante acontecimento na
Venezuela. Tida como isca destinada às camadas humildes, a redução
da jornada de trabalho para seis horas acabou por não influir no
resultado.
No Brasil, ao contrário, é
com iscas até bem prosaicas que muitos políticos "pescam" eleitores
e ainda os fazem divulgadores de candidaturas. Botinas e dentaduras
foram boas moedas de troca de votos antes das camisas e bolas para
times de futebol e, na evolução da pilantragem, a criatividade de
certos políticos descobriu a cesta básica como fator de sedução do
eleitor e veículo de propaganda eleitoral. O contemplado com o
presente recebe, junto aos itens próprios da cesta, a faixa a ser
colocada na frente da casa e os "santinhos" para distribuição entre
amigos.
Aqui u'a mão lava a outra
e as duas sujam mais a democracia!