A jaca e o PT
No fundo do quintal, com
muito cuidado, Zé da Silva Brasileiro, plantou um pé de jaca e
esperou pacientemente que ele crescesse. Todo dia, lá estava o Zé a
cuidar da jaqueira que, apesar de todas as dificuldades, cresceu e
atingiu idade e porte para produzir. Finalmente surge, porém única,
a fruta. Zé Brasileiro redobra seus cuidados para que ela "vingue" e
ele possa saboreá-la, dividindo com amigos. Chegada a hora da
colheita, o Zé reúne os amigos e com eles partilha a jaca.
Frustração maior não poderia, para ele e os que o cercam, não sentir
o sabor que esperavam. Cheiro de jaca a fruta não tinha e, quanto ao
sabor, pior impressão tiveram. Era jaca porque descendia de jaca, e
também jaca pela apresentação aos olhos; mas no resultado que
deveria produzir, era qualquer coisa, menos jaca.
Durante vinte anos,
enquanto crescia e se consolidava, o PT prometeu transformar o
Brasil com melhor distribuição de renda, moralização da política,
serviço público eficiente, independência econômica, valorização do
trabalho, melhor exploração e emprego das riquezas nacionais; tudo
isso mais uma série de pequenos sonhos do brasileiro médio. Fundado
na condição de opositor, assim permaneceu e bateu duro em todos os
governos, sem aceitar praticamente nada da política então
implementada, apelando à CPI por qualquer "dê cá uma palha",
aventando hipótese de impeachment em vários momentos e obtendo seu
intento numa das vezes. Calcado em campanha baseada nesse sonho, que
prometia tornar realidade, acrescida de dez milhões de novos
empregos para o mercado de trabalho há longo tempo em jejum, o PT se
guindou ao poder.
Chegando à metade do seu
terceiro ano de governo, praticamente nada o PT pôs em prática da
pregação durante o período de oposição. Na política social, tida
como o forte do partido, seu governo cometeu o inédito: a crueldade
de levar velhinhos de noventas anos, amparados em muletas, retidos
em cadeiras de rodas, para as filas de cadastramento do INSS, a
patifaria oficial. E pune inocentes toda vez que diz combater a
corrupção. O Bolsa Família, sucedâneo do Fome Zero, vaza recursos
por todos os lados da distribuição canhestra. Ironicamente, o único
setor onde o governo do PT acerta alguma coisa é o da macroeconomia,
graças à mesma medicação aplicada por governos anteriores, com a
diferença que em doses bem aumentadas. Governos anteriores
entregavam ao FMI os anéis. O governo do PT entregou também os dedos
(nenhuma ligação com o dedo faltante ao presidente), de forma
espontânea.
Em outro aspecto, valeu a
chegada do PT ao poder por vias ditas democráticas. Enquanto fosse
oposição, o partido seria sempre visto como a tábua de salvação,
inatingível por uma série de fatores e circunstâncias, entre eles o
preconceito de origem contra o líder e fundador, que os próprios
petistas avocavam como obstáculo. Desfez-se o encantamento no qual
se envolvia o PT como partido politicamente correto, imune às
mazelas, umas inerentes à condição humana e outras próprias da
política, especialmente a tupiniquim. A partir de agora, o
brasileiro passa a compreender que nenhum partido, nenhum sistema
baseado em ideologia de grupo detém condão mágico capaz de conduzir
a vida de todo um povo. No fundo, todos os partidos se igualam como
indutores da divisão progressiva da sociedade e não cumpridores de
propostas, apresentadas como chave para a abertura das portas do
poder.
Praza a Deus que a
sociedade organizada se descubra capaz de implementar a política e
assumir a administração pública sem a intermediação de partidos.
Assim deve ser a verdadeira democracia. Partidos políticos já
causaram infelicidades demais à humanidade!