PONTO DE VISTA DO BATISTA

O jogo duplo dos políticos

Há coisas que, por mais incômodas ou melindrosas que sejam, devem ser ditas com todas as letras, até mesmo à custa da popularidade de quem as profere. É exigência, por exemplo, da lealdade, da sinceridade, sem as quais terceiros podem ser enganados e prejudicados em seus direitos. No extremo oposto, há aquelas que até em pensamento devem ser tratadas com cuidado, pois nunca devem ser ouvidas por outrem, para não se tornarem preconceitos explícitos e discriminações, entre outros males, a minar o relacionamento humano. Em quaisquer circunstâncias, dizer o necessário no momento certo e guardar opiniões extremamente pessoais, passíveis de causar comoção em outras pessoas, é o que deveria nortear a conduta de todos no trato com o semelhante, sobretudo os que, por força de suas posições, têm mais peso na formação da opinião pública.

Entretanto esse não é o comportamento padrão de políticos. Cuidando mais de seus cargos e posições, prometem além do que podem durante as campanhas, mesmo sabendo da impossibilidade, dizem o inadmissível a respeito de terceiros, e, no exercício do cargo mascaram e/ou sonegam informações, ao contrário da transparência que pregam. Embora haja uma distância com mais de doze meses pela frente, as especulações em torno das próximas eleições municipais já tomam corpo; às vezes, no sentido de provocar e analisar reação de possíveis candidatos, para uma tomada de posição, até mesmo quanto à definição partidária, uma vez que se aproxima do prazo final para as filiações e troca de partidos. Agitam-se os pretensos candidatos, ataviam-se os que ambicionam um lugar à sombra dos mesmos, preparam terreno os que têm nas eleições um meio de ganhar dinheiro. E as sandices começam a ser ditas.

Em Juiz de Fora, especula-se sobre a volta do ex-prefeito, que foi presidente da República (por força das circunstâncias) e governador do Estado. Contrariado que foi ao pretender voltar à presidência depois de exercê-la em lugar do titular afastado, avaliou o governo de Minas como trampolim para seu retorno, quatro anos mais tarde. Mais uma vez foi-lhe puxado o tapete! Está claro que a vaidade, estampada no topete, não lhe permite descer mais um degrau, mesmo porque a idade já não favoreceria outra ascensão daqui a quatro anos. Mas, isso não precisava ser dito por um de seus seguidores, numa clara demonstração de falta de respeito para com o eleitorado: "O cargo é honroso, mas muito sofrido, porque tem contato direto com o eleitor. Isso é para quem está começando". Está aí a verdadeira face de muitos políticos. Para eles o cidadão só tem valor como voto depositado na urna, devendo, a partir da posse, cessar qualquer contato direto com ele, excetuando-se, em parte, quando no exercício de cargos no patamar municipal. Para tal tipo de político, cargos eletivos municipais constituem sacrifício, aos quais se submetem iniciantes, justamente porque estes precisam fazer o maior número possível de contatos, na construção de sua base eleitoral. Está aí também o porquê de tudo mudar depois da posse! Além de outros comportamentos de ocasião, durante a campanha valem mãos bambas nos cumprimentos, tapinhas nas costas, dentes à mostra nas subidas aos morros e favelas, cara triste e lágrimas em velórios e enterros, assim como é importante carregar e beijar crianças sujas, comer buchada de bode, beber cachaça em botequins. Depois de eleitos, "esqueçam que os vi!"

Lamentavelmente dita, lamentavelmente não lida pela grande maioria dos eleitores, tal declaração valeria como alerta para que votos não fossem dados a qualquer político com ela relacionado. E, se lida, pouco do eleitorado teria percebido quanto desrespeito encerra. Só em país com baixo índice de educação, político diz uma grosseria dessas e continua a amealhar votos!

nbatista@uai.com.br

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