PONTO DE VISTA DO BATISTA

                                             Ouro Preto, jóia descartada

O domingo ainda não amanheceu, mas pelos estalidos vindos de fora, provocados pelo gotejar do beiral nas pedras, percebe-se que se completam cinco dias de chuva persistente; fenômeno muito comum nesta época e chamado de invernada em tempos de antanho, mas que está a rarear nos últimos anos. Assim como o fogo - em pequenas doses como a do fogão a lenha, da lareira ou da diminuta chama da vela – a chuva mansa, quando não temos muito que fazer (a não ser preencher este espaço do jornal), pode nos levar a revirar a memória que já guarda muita coisa a ser ruminada. Para a grande maioria ainda é noite, mas para quem não tem o privilégio do sono longo e profundo é tempo de ensimesmar-se, reviver fatos e, talvez, tardiamente, encontrar-lhes explicações, fazer comparações com o agora ou, quem sabe, ter neles uma inspiração.

E foi assim que me envolvi na avaliação que fazemos das coisas que nos rodeiam, de acordo com a época, circunstâncias e conveniências. A chuva me fez lembrar dos tempos de garoto de calças curtas (ainda há esta classificação?) e pés no chão quando, em época de invernada, ficava de pé sobre uma caixa à janela. A razão principal era observar passarinhos a dar rápidos vôos, a partir das árvores do quintal, em busca de comida que também voava:. as aleluias. Papai ( sei que o termo afetivo foi substituído pelo possessivo "meu pai", quando não "o velho" simplesmente) trabalhava no Cúmbi e era o responsável pela turma de conserva das estradas daquela indústria extratora de mármore. Como se pode deduzir, o trabalho envolvia o remanejamento de muita terra, para aplainar, entupir buracos, aterrar, enfim, fazer transitáveis os caminhos de então naquelas paragens. Em região de ocorrência de tanto topázio, também não é difícil imaginar como era fácil encontrar as apreciadas pedras, com tão pouco valor – pelo menos, para nós – naquela época. As sem jaça, ou com o mínimo de defeitos – e isso é muito raro - um italiano adquiria por uma tutaméia, que fazia papai sorrir, pois já dava para comprar um pacote de fumo Coral e o respectivo papel, Rubi, para enrolar o cigarro. Quanto ao refugo ele, papai, lançava numa caixa de sapatos como curiosidade a mostrar a pessoas que nos visitavam. Tal refugo era bem superior ao considerado cascalho, porém comercializável, pelos pedristas de hoje. E chegamos a ter duas caixas daquelas cheias de topázios, a maioria rosada. Como não tínhamos, eu e meus dois irmãos, muito que fazer nos longos dias de invernada, os topázios acabaram virando munição de bodoque. Se aquelas pedras tivessem sobrevivido à nossa infância, nossas vidas teriam tido outro rumo. Não se sabe se para o bem ou para o mal.

Ouro Preto é uma jóia que se salvou do esmagamento justamente porque, em 1897, o progresso foi morar em outro lugar. Graças ao abandono votado pelos que se foram sob a febre da República iniciante e à teimosia dos que ficaram, a cidade teve suas características preservadas do moderno que surgia alhures. Cem anos depois, quando, de fora, todos os olhos para ela se voltam, o perigo de desaparecer de fato num monturo é mais real do que foi na era do esquecimento. De repente, seus herdeiros descobrem que podem ganhar dinheiro com ela, mas não têm consciência de que seu atrativo está no que é e não no que pensam que poderia ser. Perdida sua decantada qualidade de vida na voragem da modernidade que lhe atingiu alma, a cidade se ressente também das intervenções físicas a título de cada qual usufruir, a seu modo, os benefícios do turismo; o mesmo turismo que criticam e ao qual debitam os prejuízos oriundos da imprevidência nativa. A persistir nesse erro, mais uma centúria e a autêntica Ouro Preto será apenas uma lembrança, evocada com tristeza e pela qual seremos responsabilizados.

nbatista@uai.com.br

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