PONTO DE VISTA DO BATISTA

O lamaçal persiste

"Et consumatum est" - tudo está consumado! A oportunidade de limpar o Congresso Nacional passou, deixando para trás manifestações de revolta, indignação e promessas de melhores critérios na escolha entre os candidatos apresentados. A julgar pelo barulho reprovador da sociedade a ecoar na mídia, julgava-se então que, finalmente, uma tremenda vassourada seria passada, para deixar caminhos políticos limpos e livres de estorvos já bem conhecidos. Não foi o que aconteceu. Embora nem todos os envolvidos em escândalos tenham sido eleitos, a verdade é que muita sujeira ainda ficou ou foi levada para lá. O resultado não corresponde à expectativa mantida pelas forças morais, no período pré-eleitoral, e à necessidade que tem a nação de melhorar a representatividade no Congresso.

Fosse outro o arcabouço político-partidário deste país, todos os envolvidos em escândalos teriam sido repudiados nas urnas; ou melhor, nem se teria chegado ao estágio atual de corrupção e impunidade, porque o braço da lei teria caído pesado sobre os culpados, punindo-os especialmente com a perda dos direitos políticos. Isso, se conseguissem chegar à condição de candidatos a qualquer cargo eletivo! Resultado diferente não podia produzir um processo viciado, montado pelos próprios interessados! E a perspectiva é de que tudo se repetirá, assim como recentes e ultrajantes episódios são repetências pioradas de maracutaias anteriores. O quadro continua o mesmo: sistema favorável à corrupção, políticos inescrupulosos e eleitorado mal formado politicamente. Não há como escapar, enquanto não se fizerem mudanças radicais, que impeçam, pelo menos, a corrupção organizada e continuada, voltando assim a indignação pública contra, unicamente, a falcatrua eventual e não mais obra de quadrilhas do colarinho branco.

É claro que corrupção zero não existe, mas a sociedade tem obrigação de mantê-la como meta e cobrar rigor no trato com todos agentes políticos que fazem da área pública o quintal de suas casas. Enquanto isso, forças construtivas da sociedade devem se ocupar da educação como um todo, na formação de melhores cidadãos, responsáveis, éticos, conscientes de suas responsabilidades perante a coletividade. Que se diga não à cultura do "jeitinho", da esperteza, do privilégio e outros fatores desmoralizantes, porque da mesma massa mal formada saem também políticos.

O mais recente escândalo a envolver figuras do partido, eventualmente a ocupar o Palácio do Planalto, constitui a mais flagrante prova da deterioração dos partidos políticos e da corrupção continuada, patrocinada por eles. O caso "sanguessugas", ainda não bem esclarecido, porém, com fortes evidências de envolvimento de grande número de políticos com assento no Congresso Nacional, não foi suficiente para despertar vergonha em seus participantes, ou não teria se desdobrado noutra "melequeira", denominada "dossiê" pela mídia. A prática habituada da corrupção e a certeza da impunidade fizeram montar mais essa safadeza com objetivos "eleitoreiros" com recursos, altos na soma e suspeitos quanto à origem. É a realidade deste país!

À sombra da falta de vontade política, escasseiam-se recursos para atender às prioridades como saúde, educação, segurança, saneamento e rede viária. Mas quando se trata de auferir vantagens, há políticos dispostos a tudo, incluindo-se a produção de sujeira como essa. E diante de possível perda eleitoral, debitam o fato à foto do dinheiro estampada nos jornais, não à falcatrua em si. Pela primeira vez, dinheiro em foto faz mal a alguém!

nbatista@uai.com.br

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