PONTO DE VISTA DO BATISTA

Lamentos do carnaval

Nos tempos áureos do carnaval, que tinha confete, serpentina, a envolver pierrô e colombina, lança-perfume ainda justificava o nome pelo uso nas ruas e salões e, passado o tríduo momesco, o assunto folia só voltava à roda no ano seguinte. Calados os clarins e guardados os tamborins, recolhia-se à quaresma, que todos sabiam ser da Quarta-feira de Cinzas ao Domingo de Ramos, exatos quarenta dias, e não estendida ao Domingo de Páscoa (ou da Ressurreição) como, equivocadamente, até grandes dicionários registram. A festa era única, não ultrapassava os três dias, no máximo algumas horas dentro do período penitencial, mas todos nela se engajavam de corpo e alma a extravasar alegria, fazer deboche e satirizar fatos incomodantes, criticar a política e políticos em desacordo com as aspirações do povo. Nada escapava ao crivo crítico da sociedade, desde o barraco até a mansão, por meio da música, da fantasia e alegoria, nos três dias de pândega em que a imaginação, libertada do preconceito, democratizava o direito de divertir-se. Nem precisava ser participante ou se integrar, à ultima hora, a qualquer grupo para brincar o carnaval, como se dizia, pois o bom folião fazia a festa, mesmo sozinho, desde que dotado de imaginação, criatividade, habilidade. A fantasia ele não ia buscar na loja!

Não se contava o carnaval em pontos e ninguém ficava preso à obrigação de ganhar, vencer, ou ao medo de perder, pois era então, nas setenta e duas horas, o tempo do seja e faça o quiser para ser feliz e ter alegria, desde que a recíproca fosse verdadeira na relação com demais foliões. Era a festa do povo, feita pelo povo e para o povo. Escola de samba era coisa de carioca, no Rio de Janeiro, e, mesmo lá ela não dominava o carnaval. Havia espaço para outras agremiações carnavalescas e o carnaval de salão era o coroamento da noite de folia, animado por foliões de todas as idades, desde a adolescência. Chegada a quarta-feira de cinzas, tudo isso passava aos arquivos da lembrança, alimentando a saudade do passado e a expectativa quanto ao carnaval do ano seguinte.

Tudo evolui e deve evoluir, mas não se entende porque a evolução do carnaval tinha que passar pela "estatização" dentro das prefeituras como produto a ser vendido a turistas ou simplesmente inserido entre as realizações das administrações municipais como sagrado dever dos políticos. Não se entende, se também não quiser, porque difícil não é perceber quanto de interesse há nos bastidores. Exposto nas vitrines municipais, o carnaval oficializado tirou do povo o antigo canal de críticas, e, da diversidade de manifestações e espontaneidade popular, caiu na mesmice das escolas de samba, em todas as cidades, gerando competição entre grupos e conseqüente insatisfação dos preteridos pelas bancas de julgadores. Não mais carnaval como prazer e alegria, porque antes vem o dever de se exibir e de vencer.

Por isso, em vez da saudade sobra lugar para recriminações, acusações e troca de insultos, só faltando a troca de sopapos ou até pancadaria, a exemplo do que acontece nos estádios, como meio de compensar a frustração, uma intrusa nos domínios dos sentimentos momescos. É lamentável que tudo isso esteja a acontecer, toldando a imagem do que resta do folguedo, cujo passado ainda se lembra com carinho e do qual nossos netos só ouvirão lendárias referências. Derrotado é todo o povo, que se perdeu e desaprendeu brincar o carnaval!

nbatista@uai.com.br

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