O Brasil é terra
das soluções simplistas, para não dizer safadas, velhacas, cambetas,
em concessão de privilégios a minorias ou para atender propósitos
quase sempre de manipulação, controle e dominação dos interesses da
maioria. É assim que, de vez em quando, de lá vem anistia fiscal a
beneficiar pessoas e grupos sonegadores de impostos e contribuições
sociais ou, quando pouco, redução do montante e facilidades extras
no recolhimento dos tributos em atraso. Se há sonegação, ainda que
diante de corpo fiscal, é porque alguma coisa está errada no
sistema. À grande maioria de contribuintes leais e honestos nada se
lhes concede. A Previdência Social é o grande exemplo da
ineficiência na cobrança do a ela devido e da voracidade sobre
direitos dos seus segurados, na tentativa de reduzir o déficit
resultante da inadimplência.
É a solução
simplista com base na lei do menor esforço! Ao invés do arrocho
sobre os devedores, entre os quais grandes empresas privadas, órgãos
públicos e empresas estatais, a mão pesada da Previdência cai sobre
seus dependentes. Que se danem os segurados! É assim que, ao longo
do tempo de ineficiência, envolta em grossa corrupção, a Previdência
cortou o abono de permanência aos que completavam trinta anos de
contribuições (pé na cova), extinguiu o pecúlio formado pelas
contribuições do aposentado empregado, passou a achatar as
aposentadorias até ao nível do piso salarial, não perdoando nem
mesmo aos aposentados empregados, que são contribuintes a fundo
perdido.
Ao excesso de
velocidade, no trânsito selvagem, se contrapõe o famigerado
quebra-molas que pune mais condutores responsáveis, além do incômodo
aos passageiros, destacando-se entre estes os portadores de
anomalias na coluna vertebral. Registre-se ainda a febre do
quebra-molas, ainda que fora dos padrões, em ruas e caminhos
esburacados por natureza, mal construído e sem sinalização, que se
tornou símbolo de status; todos a querer um à frente de sua casa. Na
área da segurança pública, para combate à criminalidade que anda de
moto, já houve proposta de proibição da garupa nas motocicletas.
Mais uma vez é a lei do menor esforço, da comodidade, ou, punam-se
os justos em lugar dos pecadores.
Por muito tempo,
a escola pública foi dos filhos de apaniguados e de funcionários
públicos, mantendo-se ao longe a descendência dos não protegidos,
até que veio a democratização perneta. Aí as portas se abriram a
todos, mas, para compensar o mau aproveitamento de ineptos e
indolentes reduziu-se a qualidade do ensino. Para que todos
colhessem cocos, derribou-se a palmeira! A escola pública entrou em
processo de decadência, acelerada por baixos salários e
desvalorização do magistério a começar pela poda da autoridade do
professor dentro da escola. Da quebra de autoridade do professor
resultou a violência, banalizada ao extremo de se ver professor
levado à morte por mãos de aluno.
Em resposta aos
reclamos da sociedade contra a qualidade do ensino, surge iniciativa
que pretende reverter a situação, mas, como sempre, nada de concreto
como reforma ou nova estrutura no sistema nacional de educação. Mais
uma vez apela-se para o sacrifício de um grupo e, por incrível que
pareça, o grupo é a classe política; sim, nada mais do que os
agentes públicos eleitos. De acordo com projeto, em trâmite no
Senado, desde 2007, ficarão obrigados a matricular seus filhos e
dependentes em escolas públicas, até 1º de janeiro de 2014, no
máximo. Como agentes públicos eleitos estão classificados prefeitos,
vereadores, governadores, deputados estaduais e federais, senadores
e presidente da República, além dos vices do Executivo nos três
níveis, governador e deputados do Distrito Federal.
Os menos atentos
à questão ou que não se distinguem como defensores dos princípios
democráticos já estão a bater palmas para o projeto. Longe de ser a
solução para os problemas do ensino no Brasil, a ideia é
inconstitucional, pois quebra o princípio da igualdade de direitos
entre cidadãos. Dentro da classe política muitos são os merecedores
de críticas e de rigorosa punição por sua conduta inerente ao cargo
ocupado, mas a escolha da escola para seus dependentes é direito de
cidadania, não podendo, portanto, ser violado. E o projeto, se
aprovado, carrega em seu bojo o ferrolho para trancar outros
direitos do cidadão e colocar mais governo sobre sua vida. Talvez
seja esta a ideia, aparentemente favorável à sociedade, que os
inimigos da democracia aguardam para dar outros golpes contra a
liberdade no Brasil. Espera-se que, se não tiverem juízo bastante em
relação aos princípios democráticos, pelo menos não queiram violar
seus próprios direitos de cidadãos.