Alegria, salva da fúria
humana!
Entre destaques da
crescente tragédia humana, ganhou grande espaço na mídia o
julgamento da mulher acusada de tentar matar a própria filha, de
apenas dois meses de idade. Ela embrulhou a garotinha num saco
plástico e lançou às águas da Pampulha em Belo Horizonte. A criança
só escapou da morte porque seu choro despertou a atenção de pessoas
que, a princípio, movidas pela curiosidade, depois pela
solidariedade, a resgataram das águas, tal como no caso do Moisés
bíblico. A diferença entre os dois casos é que o menino Moisés foi,
cuidadosamente, colocado em berço flutuante e sua mãe ficou à
espreita, para se certificar de que seria visto e resgatado pela
filha do faraó. A mulher da Pampulha simplesmente lançou a criança e
foi embora, confiante em sua inteligência e esperteza – todo
criminoso se julga inteligente o bastante para nunca seu crime ser
descoberto – para cuidar de sua vida sem o estorvo da "droga de
menina". Do gesto daquela mãe hebréia e do sentimento de
solidariedade da princesa egípcia nasceu toda a civilização
judaico-cristã.
Por enquanto, sabe-se que
a pequena resgatada da Pampulha está bem cuidada e, praza a Deus,
que muitas alegrias tenha e proporcione a longo prazo, conforme
prenuncia seu nome, Letícia. Que nunca venha a sofrer, em razão do
ato desnaturado, e receba de quem a acolheu a educação, que forma o
ser humano livre de traumas e ressentimentos.
De acordo com noticiário,
conclusões das investigações e acusação formalizada, a mulher da
Pampulha teve a intenção clara de matar, só não alcançando seu
intento porque casal passante pelo local socorreu a criança, cujo
choro, no início, foi confundido com miado de gato. Ironicamente, ao
salvar a pequenina Letícia, o casal salvou também a quase assassina
de pena maior, porque a lei, não levando em conta a intenção, a
julgou somente por tentativa de homicídio. E aqui entra a questão do
conceito de tentativa. Atirar, eventualmente, contra outro, e não
alvejar, por imperícia ou propositalmente, é tentativa de homicídio.
O autor do disparo falha por sua própria atuação, não empregando
todos os meios para ferir de morte o seu oponente, o que creio ser
muito diferente de quem planeja e executa ação perfeita para se
consumar o crime. A mulher da Pampulha conduziu toda sua ação para a
consumação do homicídio, só não o conseguindo por razões alheias e
opostas à sua vontade.
Penso que a lei, para
fazer justiça, deveria considerar esses casos como crimes
consumados! Considerada culpada por tentativa de homicídio graças ao
casal que salvou a criança, a mulher da Pampulha foi condenada a
pouco mais de oito de anos de reclusão, que acabam se encolhendo à
metade; isso se a defesa, mediante recurso, não conseguir
reduzir-lhe a pena.
Em outro drama que comoveu
o país, há quatro anos, mãe goiana foi condenada também a oito anos
de reclusão, não por tentativa de homicídio, mas, seqüestro de
criança que ela criou e educou até o jovem completar dezesseis anos.
Não se trata aqui de defender a seqüestradora ou fazer apologia ao
crime por ela cometido, mas a pena de oito anos, passados dezesseis
depois do seqüestro, me parece mal endereçada; deveria ser dividida
com mais pessoas. Faltou gente no banco dos réus! Se o crime ficou
sem solução durante dezesseis, foi porque falhou o aparato policial
do Estado brasileiro, ou não houve empenho bastante por parte das
autoridades competentes.
Afinal por que a mesma
pena para crimes tão diferentes? O da mãe goiana parece ter sido por
amor a crianças. O jovem equilibrado e educado agora integrado à
família biológica prova por si mesmo. Da mulher da Pampulha foi, no
mínimo, por desprezo àquela "droga de menina", que não morreu porque
terceiros não deixaram. E só oito anos?