Lições da natureza
Agressividade e crueldade,
fatores corriqueiros na interatividade humana, põem em dúvida o
conceito de racionalidade da espécie comparada com as demais, todas
tidas como irracionais. O choque da surpresa é causado por conflitos
que, pela proximidade íntima ou de parentesco dos envolvidos,
difícil fica acreditar em desfecho sem retorno, ou seja, a morte
para uma das partes. Com a agravante da premeditação, a história
debita a futilidades crimes dos mais cruéis entre casais. E a
atualidade tem mostrado que a agressividade não tem limites nem
mesmo entre pais e filhos, ora uns ora outros na função de algozes.
Há duas semanas, Ouro
Preto levou a júri popular o pai que encerrou conflito doméstico,
matando o próprio filho ainda bebê! Há sete anos, um grupo de jovens
brasilienses "bem nascidos" fez do índio Galdino tocha viva e
agonizante até a morte, apenas por brincadeira, segundo a opinião de
um deles. Desde então dormir nas ruas das capitais brasileiras
constitui sério risco de virar churrasco nas mãos de piromaníacos.
Tudo isso e muito mais
acontece no mundo humano, inteligente, organizado, policiado,
fiscalizado e regido por leis, pretensamente, mui sábias. Entre
humanos chega a ser pavoroso viver, consideradas a crueldade e a
agressividade, tanto individual quanto coletiva (guerras). Quão mais
pavoroso seria viver, se no meio dito irracional prevalecesse a
mesma conduta! Não é preciso pensar em vingança de algumas espécies
contra a crueldade humana, praticada em nome de suposta
superioridade Imaginemos, na mesma escala, desavenças no círculo dos
bichanos, dos cães, ou de qualquer espécie mais próxima do homem.
Lembro-me agora da cena em
que um boi, escapado da tutela de quem o conduzia, saiu a correr por
rua de São Paulo, terminando por invadir e destruir um açougue. Se
boiadas se rebelassem como grupos humanos e resolvessem sair do
confinamento dos pastos, não sei o que seria de nossas cidades. Mas,
insetos causariam mais transtornos à vida humana! Às abelhas
bastaria deixar de lado sua organização social, por algumas horas,
para estabelecer o caos na chamada civilização. Tais conjecturas
podem até se converter em realidade, se não contidos avanços no
desequilíbrio ecológico. Entretanto e felizmente, o que ainda se vê
são exemplos de harmonia entre os animais e destes com a natureza.
Na semana passada, graças
ao espírito de repórter de um jovem gaúcho de dezoito anos, o que
poderia ser considerado mentira de pescador chegou ao conhecimento
do público, para provar que há muito que aprender com os animais:
uma galinha cuidava de três gatinhos, como se fossem seus filhotes.
A gata, bem folgada pode-se deduzir, levou os filhotes para o
galinheiro onde estava a galinha branca, choca, porém sem nunca ter
chocado pintinhos. Sem qualquer hesitação diante da possibilidade de
um dia gatinho daqueles comer pintinhos seus, a galinha os acolheu
como se fossem seus filhotes. A gata, por sua vez, se considera
liberada para malandrar como lhe aprouver, indo ao galinheiro só
para os bichinhos amamentar; aliás, o que muito lhe convém, pois tem
que se descarregar do leite produzido. A interação entre as duas
espécies, tradicionalmente antagônicas, pois gatos são conhecidos
predadores de aves de pequeno porte, se completa com os gatinhos a
brincar com a galinha, fazendo do seu dorso tobogã. Confiança de um
lado e instinto maternal do outro se somam para oferecer nova visão
do mundo para aqueles bichanos.
Não se sabe ainda, se
dessa experiência gatos continuarão a falar somente o "miau", ou
terão o "có-có-có" como segunda língua!