O sentimento da população brasileira para com a
política e os políticos é de profunda indignação e revolta.
Infelizmente os desmandos são de tal ordem e número que, além deste
sentimento de frustração, as pessoas parecem estar anestesiadas.
O Lions Clube de Blumenau Centro, com 53 anos
ininterruptos de serviços prestados à comunidade, tem, entre seus
objetivos, o estímulo ao patriotismo. Conta até hoje em suas
reuniões com alguns dos seus fundadores, forma um grupo preocupado
com o Brasil e também se sente atingido por esta indignação, que é
notória nas ruas.
Em vista disso elaborou o presente manifesto, a
ser divulgado de todas as formas e por todos os meios possíveis,
objetivando despertar o país da letargia e reverter o quadro
lamentável que se espalha entre os brasileiros responsáveis. Ainda
que os índices econômicos possam aparentar uma certa tranquilidade,
ela é ilusória, na medida em que padrões éticos estão sendo
vilipendiados diuturnamente nos mais variados níveis da
administração pública. Eles são tanto mais graves, quanto mais
próximos da esfera federal.
Escândalos de toda ordem, desde malversação do
erário, favorecimentos pessoais espúrios, espírito corporativista
intoleravelmente reprovável, aumento absurdo no número de cargos e
atitudes antiéticas deixaram de ser exceção, para virarem regra. Nem
bem um escândalo é divulgado, outro lhe toma o lugar, gerando na
população, por esta sequência regular e continuada, aquele
sentimento de impotência e letargia referido anteriormente.
Parecemos todos zumbis estáticos, observando os fatos sem reagir,
descrentes de mudanças positivas.
Não se trata de reivindicar um simples e utópico
processo de distribuição de renda, de criticar irresponsavelmente a
livre iniciativa ou de levianamente censurar bons salários aos
administradores públicos competentes. Trata-se de encontrar um
modelo mais comedido, em que o cidadão trabalhador não fique
estarrecido ao verificar que o que percebe de rendimento em toda uma
vida é pago a alguns funcionários públicos e parlamentares em
questão de poucos anos, quando não alguns meses, sob as mais
variadas denominações!
Ainda que fosse somente pelo fato de não
carregarmos na consciência a censura de nossos filhos e netos pela
nossa omissão e pelo nosso silêncio, e não pelo patriotismo em si,
hoje tão pouco em voga, nós, membros do Lions Clube Blumenau Centro,
sentimos ter chegado o momento de levantar a voz, pacífica mas
energicamente. Este manifesto não pretende ser um brado
irresponsável, uma palavra de ordem surrada ou um grito oportunista,
que são os adjetivos tantas vezes usados pelos poderosos para abafar
os protestos dos insatisfeitos.
Ele pretende ser um alerta, um chamado ao
despertar, um incentivo à formação de cidadãos que, além de emprego
e trabalho, sintam orgulho dos líderes que conduzem através do seu
voto aos cargos públicos, dos mais altos aos mais baixos,
delegando-lhes poderes para fazer honestamente o melhor pelo país,
pela sociedade, pela comunidade.
O Lions Clube de Blumenau Centro está preocupado
com a violência já não mais restrita aos grandes centros e que
avança dia a dia, alcançando índices alarmantes. Está preocupado com
a educação, na qual, sob um distorcido conceito de liberdade, os
alunos estão agredindo os professores, as drogas estão sendo
consumidas por nossa juventude à luz do dia e diante da polícia,
trazendo em seu rastro a criminalidade crescente, apenas para citar
alguns exemplos.
Os parlamentares estão legislando cada vez menos,
porque preocupados em acusar adversários ou em defender-se de
acusações, brigando por cargos e benefícios, dando as costas àqueles
que juraram defender. Reclamam do Executivo quando este governa com
medidas provisórias, mas não têm coragem de simplesmente
rejeitá-las, temerosos de que com isso seus apadrinhados sejam
prejudicados nas inúmeras nomeações que irão favorecer este ou
aquele partido e assim perpetuar as benesses que aparentemente
passaram a ser o objetivo principal e imediato de suas ações. Não
menos preocupante é o quadro do Poder Executivo em seus vários
níveis, pois se vale exatamente deste poder de nomeações e da
famigerada “caneta na mão” para manter em rédea curta o Congresso.
Nele os parlamentares assemelham-se a sócios lutando por objetivos
comuns, embora condenáveis e distantes das necessidades da
população.
Triste é também a situação do Judiciário, que,
embora dispondo hoje de toda a tecnologia da informática, acumula
nos gabinetes os processos cujas decisões o cidadão ansioso espera
por anos, às vezes décadas. Ilustra bem este quadro a recente
divergência manifestada de forma agressiva e lamentável entre os
ministros da mais alta corte, o Supremo Tribunal Federal, minando a
confiança das pessoas na última instância a que podem recorrer
quando têm seus direitos ameaçados ou agredidos.
Se a democracia está sustentada nestes três
poderes e estes estão tão comprometidos em sua ação efetiva e em seu
comportamento ético, fácil é concluir que quando o fundamento é
frágil, a estrutura que ele sustenta também se fragiliza e ameaça
ruir. Não foi para isso que a democracia foi defendida a alto preço
em passado recente. Simplesmente tratar desiguais com igualdade não
é democracia, é anarquia!
A classe dirigente não pode ser apenas uma elite
intelectual. Isso é pouco! Ela tem de ser, antes disso e mais que
isso, uma elite moral. Um bom serviço eventualmente prestado no
passado por algum político não autoriza e nem pode servir de
atenuante para que ele cometa deslizes no presente. Napoleão já
dizia que “Toda indulgência para com os culpados revela conivência.”
Assim como não se pode exigir que um filho imaturo seja exemplo para
seus pais, mas sim o contrário, da mesma forma não se pode jogar nas
costas da sociedade a responsabilidade pelo pouco caso que seus
dirigentes têm para com a coisa pública, impingindo-se a ela,
sociedade, a culpa por suposta falta de critério na escolha dos
candidatos eleitos. Esta é uma forma ardilosa, perversa e demagógica
de pulverizar a responsabilidade por má conduta, tirando-a dos
ombros dos dirigentes para espalhá-la comodamente sobre os ombros
dos dirigidos.
O objetivo do presente manifesto é, finalmente,
despertar na opinião pública, nos clubes de serviço, órgãos
representativos, imprensa e comunidade em geral, um clamor para que
apareçam sugestões de procedimentos mais éticos e reformas
estruturais.
Folha corrida limpa para candidatos a cargos
públicos? Eliminação ou restrição drástica de comissionados?
Redirecionamento das prioridades do país? Assembléia Nacional
verdadeiramente “Constituinte” e não simplesmente com poderes
constituintes como foi a de 1988? A Constituição “cidadã”
efetivamente logrou promover a verdadeira e autêntica cidadania?
Manteve equilíbrio entre direitos e deveres? São perguntas
ilustrativas que este manifesto, num primeiro momento, deixa no ar,
para reflexão.
A nossa associação não tem receitas prontas para
que esta mudança urgente e inadiável se concretize. Ela deseja sim,
juntamente com outras entidades, participar com sugestões. Mas,
cabendo originalmente ao Congresso articular as mudanças positivas,
é lá que deve acontecer a mudança em primeiro lugar.
O Lions Clube de Blumenau Centro, através deste
manifesto, busca o apoio de tantos quantos o lerem e concordarem com
ele para que, formada uma corrente de ética, moralidade, cidadania e
transparência, se dê um basta a esta torrente de escândalos. Que
comecemos todos nós, brasileiros de bem, a construir um país melhor,
mais humano, íntegro e civilizado, dirigido por pessoas das quais
possamos nos orgulhar e não nossentirmos profundamente
envergonhados, como hoje acontece. Que nos sirva de inspiração,
incentivo e fecho deste manifesto a seguinte frase do escritor e
analista econômico e político sul-africano, Leon Louw: “Se
conseguirmos fazer avançar a multidão na direção certa, os políticos
não terão outra alternativa senão sair à sua frente.”
Blumenau, SC., Julho de 2009.
Hézio Araújo de Souza
Presidente 2009/2010