Logrado pela natureza
Como hoje, dizem, já é
carnaval - confirmando-se, pois, que maior quantidade quase sempre
denuncia má qualidade - o assunto deste espaço pede menos esforço,
mesmo porque ocupados com a folia poucos estarão à cata de leitura.
Explicando a relação quantidade/qualidade acima referida, o carnaval
de apenas três dias era o suficiente para nos satisfazer e nos deixar
com saudades durante trezentos e sessenta e dois dias. Quando ele perdeu
qualidade, aí lhe acrescentaram mais dois dias e criaram o ridículo
carnaval temporão. Bom, não é para falar de carnaval, pois o que era
bom ficou para trás e o mal, feito aos que se seguiram, dificilmente
será corrigido. Vamos ao que mais interessa, pelo menos, para mim.
Assim como não me afino muito
bem com Morfeu, deus dos sonhos - talvez porque seja deus e não deusa -
também não combino com o do frio (e quem é ele?). Essas duas
particularidades se complementam para me causar a sensação de noites
mais longas do que verdadeiramente são durante o inverno. Sinto-me um
alienígena quando vejo pessoas a viajar, desaparecidas num monte de roupas
espessas, só para conhecer neve, brincar no gelo. Gelo para mim só na
geladeira! Não tenho vocação para pingüim, embora considere muito
simpática a desajeitada ave. Também não invejo quem aprecia o extremo
oposto, no Saara, por exemplo, e considero de extremo mau gosto voltar
da praia tostado pelo sol como "mineiro à pururuca". Por
isso, durante a estação do frio aguardo ansioso pelo verão que, de
acordo com a lógica climática entre as montanhas, nos trás o calor
temperado com chuvas. É a hora de me libertar dos agasalhos e soltar o
corpo, durante mais de três meses encolhido como reação à
desagradável sensação que as baixas temperaturas me dão.
Mas, eis que em plena
estação da liberdade corporal e em vésperas de carnaval, abate-se
sobre nós um inverno temporão com temperaturas só comparáveis às do
mês de julho; quase uma semana a dormir sob cobertores e obrigado
desenfurnar agasalhos, que deveriam aguardar sua vez somente daqui a
três ou quatro meses. Sinto-me lesado, roubado mesmo, como se me
tivesse sido entregue mercadoria diferente daquela pela qual paguei. Que
se passa? Terá a natureza também caído sob domínio do governo, ou
políticos mantêm relação corrupta com forças determinantes das
funções de cada estação climática? Protesto e exijo reparação de
danos, mas fico na dúvida quanto a quem me dirigir. Não sei se me
dirijo ao DCA-Departamento Celeste das Águas, administrado por São
Pedro, ao IDC-Instituto dos Dias Claros, que funciona sob a supervisão
de Santa Clara, a protetora das lavadeiras, ou vou diretamente ao
Ministério Celeste do Meio Ambiente. Antes disso, entretanto, pretendo
formalizar queixa junto ao Procon da natureza, e, quem sabe, negociar um
aumento de temperatura durante o inverno, baseado na mesma variação e
período equivalente ao da queda verificada agora; o que, a priori,
considero improvável devido à rigidez do regulamento daquela
estação. De qualquer forma, o assunto merece investigação rigorosa,
pois a derrapagem climática chega a abalar a credibilidade da
instituição, considerada incorruptível até o momento em que,
soprados ventos contrários com denúncia de iminente queda de
temperatura, o fenômeno se confirmou.
Quem diria, o verão sempre
tido e havido como estação das temperaturas elevadas e tudo ás
claras, indiferente a qualquer pressão em sentido contrário, resvalar
para a natureza invernosa, que facilita relações espúrias e estranhos
conchavos. Uma CPI no céu poderá melhor avaliar a extensão do mal
feito e evitar que o fenômeno se repita!