PONTO DE VISTA DO BATISTA

Da lousa ao computador I

De vez em quando é bom colocar a usina de idéias a remoer coisas já esquecidas, para comparar com o que se tem hoje e antever o porvir. É exercício que dá prazer. Comparem-se, por exemplo, os meios da escrita de hoje com os de há cinqüenta, sessenta anos. A máquina de escrever está sendo rapidamente substituída pelo computador que, por sua vez, dá passos apressados em seu aperfeiçoamento. Já não se precisa do uso das mãos diante do micro, pois ele entende a fala humana e escreve.

E pensar que as primeiras garatujas, no processo de alfabetização, as fiz em lousa de ardósia, que a grande maioria dos mais jovens talvez nem saiba ter sido usada na escola. Não a conheci nos bancos escolares, onde já havia sido abolida, mas em casa. Tive uma mãe que teve o cuidado de me iniciar na alfabetização, valendo-se da lousa que lhe servira para que eu também aprendesse. Minha primeira folha e meu primeiro lápis foram, portanto, de pedra; assim como são os dos personagens do desenho "The Flintstones!" Ao ingressar na escola tomei contato definitivo com o lápis e a folha de papel, em numero de oito, num caderno encardido de capa azul escuro. É interessante lembrar o material levado à escola para os primeiros meses de aula: um caderno de oito folhas, um lápis preto e uma borracha. Nada mais! Mas, o retorno era considerável!Durante todo o primeiro ano, escrevia-se apenas com lápis. E nem podia ser de outra forma, porque o descuido natural da criança pintaria de azul a sala de aula. Somente no segundo ano, o aluno era iniciado no manejo da pena de molhar. Um pequeno tinteiro de tinta azul, ou preta, tornava-se incômodo companheiro do pequeno estudante. A pena, - estilete na ponta de pequena haste de madeira que formava a caneta - era molhada no tinteiro antes de registrar, no caderno, a garranchada úmida, muitas vezes borrada pela inexperiência e também por impurezas contidas na tinta. Até o aluno aprender a lidar com aqueles apetrechos, os desastres se sucediam; tinteiro tombado na carteira e o conteúdo vazando ao chão, roupas manchadas, etc. A pena, muito frágil, esborrachava-se com facilidade ao mínimo esbarro em superfície mais dura Entretanto, em relação aos alunos imediatamente abaixo de seu estágio, cada aluno se sentia um ser superior, pois havia superado a fase do lápis. Mais do que ele, que já escrevia molhado com a pena simples, era quem possuía caneta tinteiro. A caneta tinteiro dispensava ao aluno levar o vidro de tinta à escola. Era só encher o reservatório embutido no corpo da caneta. Mas esse privilégio era reservado a poucas crianças, pois seu preço era proibitivo a orçamentos restritos ao extremamente básico. Havia de várias marcas e modelos e algumas se constituíam no sonho acalentado por pessoas que, por força das circunstâncias, escreviam mais que outras. Entre adultos, o supra-sumo era a "Parker 51", onde o nome era marca e o número o modelo. A Parker 51, durante algum tempo, foi símbolo de status social. Ganhar uma de presente era sinal de muito prestígio e consideração.

E na escola, outro apetrecho o aluno passava a usar. Há quanto não se houve falar no mata-borrão? Ele que já foi tão importante, tanto na escola, quanto no escritório de qualquer natureza, caiu no esquecimento geral. Duvido que algum garoto da era do computador tenha ouvido falar dele! Antes de fechar o caderno escolar, o livro de registro, ou assinar o documento, o mata-borrão tinha de entrar em ação. Caso contrário, corria-se o risco de refazer todo o trabalho. O mata-borrão era um papel espesso e extremamente poroso que chupava toda a umidade onde era assentado. Por ser indispensável e largamente usado em qualquer local onde se escrevia a tinta, era excelente veículo de propaganda. E os produtos farmacêuticos fizeram dele o motivo de tantas crianças nas farmácias à procura do mata-borrão.O mata-borrão distribuído pelos laboratórios farmacêuticos tinha uma face porosa e outra de superfície lisa na qual vinham os anúncios. Deixou de existir quando, quando a esferográfica foi plenamente aceita. E isso não aconteceu de um dia para o outro.

nbatista@uai.com.br

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