PONTO DE VISTA DO BATISTA

Da lousa ao computador II

Quem leu esta coluna na edição da semana passada deve ter percebido que o texto terminou "meio no ar", inconcluso. Propositalmente, a interrupção foi feita daquela forma para dar a entender que se voltaria "à vaca fria" nesta edição, pois se estendido o assunto naquela, faltaria espaço. Uma coincidência ainda veio reforçar a necessidade de voltar ao tema dos meios de escrita, pois, de Brasília veio a notícia da "aposentadoria" da caneta presidencial na assinatura de documentos. Está sendo substituída pela tecnologia sob a forma da assinatura digital.

Da lousa - mencionada no artigo anterior e que ainda guardo como troféu - à assinatura digital, o gigantesco passo dado em tão curto tempo nos induz a perguntar como será o mundo dentro de dez, vinte, cinqüenta anos, mantida a progressão do desenvolvimento tecnológico. O lápis, a tinta líquida, a pena de molhar e a caneta tinteiro dominaram como meios de escrita durante muito tempo, não perdendo espaço nem mesmo com a introdução da máquina de escrever, que fez surgir a datilografia e a profissão do datilógrafo, ambicionada por quantos pensavam fazer carreira em escritórios. Pessoas mais simples consideravam a "tilografia" quase ciência e reverenciavam o "tilógrafo" como se fosse doutor. A escrita mecanizada (máquina de escrever) e a manuscrita cumpriram suas funções lado a lado, sem que uma ameaçasse a existência da outra. Mas na área da manuscrita, a tinta líquida e requeridos apetrechos, como pena e caneta, viram a intromissão, a princípio discreta, de uma estranha caneta que dispensava o tinteiro, pois vinha abastecida e era descartada ao se esgotar a carga. Como sempre acontece com as novidades destinadas a alterar hábitos e costumes, quebrar tabus e tradições, a esferográfica não foi bem recebida. As primeiras tinham a "casca" de madeira, como o lápis, vazavam sua carga gordurenta nos bolsos ao menor aquecimento e apresentavam borrões no curso da escrita. Além disso, a uniformidade do traço proporcionado pela esfera eliminava o contraste entre o traço fino (ascendente) e o grosso (descendente), característica que, bem explorada pelos mais habilidosos no manejo da pena de bico chato, faziam destes elogiados calígrafos. Quem escrevia bonitinho tinha seu valor, conseguia e se mantinha em bons empregos. Contando tantos pontos desfavoráveis, a nova caneta não avançou muito na ocupação de espaços, mas também não recuou. Enquanto não obtinha nítidos aprimoramentos, seu destino foi o consumidor informal e a escrita descomprometida como bilhetes, correspondência familiar ou entre amigos íntimos, rascunhos, etc; nada com caráter de documento. Cheque preenchido com esferográfica, nem pensar! Lembro-me que, no Colégio Dom Bosco, aos alunos seu uso era restrito a rascunhos. Qualquer trabalho entregue, se elaborado com esferográfica, recebia zero do professor, sem perdão! E havia quem não permitia a intrusa sequer repousada na carteira.

Pudessem ser-lhe conferidos valores humanos, a esferográfica seria heroína! Enfrentou preconceitos, desprezo e rejeição, mas não desistiu e evoluiu até alcançar o atual estágio de plena aceitação. A esferográfica venceu a resistência inicial que, analisada hoje à luz da decadência constatada, revela-se intuitiva quanto ao estrago que faria na manuscrita. Não mais presos nem mesmo à maneira correta – ensinada na escola - de empunhar a caneta de tinta líquida, há usuários a maneja-la como a uma alavanca, sem preocupação com o resultado que deveria ser fazerem-se entendidos por meio da escrita. A partir dessa mediocridade e com o avanço da informática, o homem tende a perder a habilidade no manuscrever, por meio da qual revela muito de sua sensibilidade. Entrega à máquina até o direito de imprimir sua marca pessoal, a assinatura, que a indelicadeza já omite em missivas com força de documento. Passada a era do computador – porque nada é definitivo – o que virá? Talvez voltemos a escrever na pedra!

nbatista@uai.com.br

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