PONTO DE VISTA DO BATISTA

A lua paulistana

Quem curtiu cinema nos anos sessenta, deve se lembrar de certo tipo de filme, que mostrava costumes bizarros, esquisitices, curiosidades e fatos fora da chamada normalidade, de toda espécie. Eram editados em série intitulada "Mundo Cão". Entre os aficionados do cinema, nem todos tinham estômago para ver tais filmes, mas eles tinham seu público. E por falar em estômago, lembro-me de um dos tais filmes que mostrava um pastel recheado de percevejos vivos, vendidos em barraca de espécie de quermesse em país, cujo nome não guardei. O pastel era preenchido e fechado na frente do freguês. Este, por sua vez, comia com avidez e não perdia um percevejo sequer; puxava com a língua o bichinho que, às vezes, escapava à primeira bocada no petisco e saía correndo pelos cantos da boca.

Pois bem, o cinema já não é mais a coqueluche que arrastava multidões de espectadores, especialmente nos fins de semana. Em seu lugar surgiu a televisão, que supera em muito a exploração do mau gosto, do bizarro e da miséria humana. Mas, o forte mesmo de determinadas redes agora são os programas policiais, ao vivo, e com muitas mortes, levados ao ar com estardalhaço à boca da noite. As tragédias, filmadas e narradas de todas as maneiras possíveis, são repassadas nua e cruamente ao público, com direito a repetições intermináveis, que se prolongam, às vezes, por mais de uma semana, dependendo do ibope alcançado no primeiro momento. Cenas deprimentes, como aquela do policial militar que apontava a arma para a própria cabeça, em seu gesto tresloucado de suicídio, infelizmente consumado; ou revoltantes, quando bandidos recebem, dos repórteres, atenção exagerada, em detrimento da sociedade ofendida em todos seus valores. Malfeitores dão entrevistas, como se autoridades fossem, e zombam da lei. Os massacrantes interrogatórios aos quais vítimas e familiares são submetidos se compõem de perguntas, que pisam e repisam o sofrimento das pessoas. As respostas são óbvias demais para serem provocadas, mas o apresentador do programa cobra, os repórteres insistem. E a tortura continua1! Para levar ao ar esse circo de horrores vespertino, em torno do qual já se levantam suspeitas de ser previamente preparado com o propósito de a Polícia mostrar serviço, helicópteros sobrevoam e motos circulam por toda a cidade. A agilidade é indispensável para garantir audiência. Do estúdio, e em cima das narrativas dos repórteres, o apresentador faz comentários exaltados, intercalados de auto-elogios à equipe e emissora. Baboseiras, como "força aérea da emissora" em referência aos helicópteros, vêm no meio do borbotão de palavras.

Há poucos dias, num arroubo de romantismo piegas, o apresentador comentou com a repórter do helicóptero que a lua estava muito bonita em São Paulo. Ela, por sua vez, confirmou, acrescentando, "embora o nevoeiro atrapalhe um pouco". Referências ao luar em meio a notícias de sangue e violência devem ter seu valor psicológico. Mas, acontece que tal referência foi feita no dia vinte e sete de junho, quando a lua estava no final da fase minguante, para entrar, dois dias depois, na fase nova. Portanto, naquela noite, a lua não se mostrava. Ela só se mostrou, numa nesgazinha, pouco antes das seis horas da manhã seguinte e desapareceu ao nascer do sol. Até o nevoeiro deve ter sido inventado pela repórter, para livrar o chefe de questionamentos, se alguém resolvesse ir lá fora para conferir. Dá para imaginar quanta asneira é dita por tal apresentador!

De origem desportiva, deslocado dos estádios, onde a alienação fica nas alturas e o cuidado com a informação abaixo de zero, tal profissional abusa de seu alto índice em p.d.p.m./palavras ditas por minuto. E por falar em alienação, Lênine, líder da Revolução Comunista na Rússia, dizia: "a religião é o ópio do povo". É porque ele não chegou a conhecer a doença do futebol!

nbatista@uai.com.br

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