PONTO DE VISTA DO BATISTA

A luz que falta

Para quem se incomoda com o simples piscar da lâmpada e se impacienta com interrupção do fornecimento da energia elétrica por um minuto, é angustiante saber que cerca de doze milhões de brasileiros, mais de dezessete por cento da população, ainda vivem à luz de lamparina ou equivalente. Saber que, das comodidades proporcionadas pela energia elétrica e com as quais convivemos como se fossem parte da natureza, nenhuma pode ser usufruída, em pleno século vinte e um, por tantas pessoas debaixo do mesmo teto nacional, chega a dar sentimento de culpa, sabendo-se que é grande o desperdício, embora se reclame contra o alto preço da energia. O governo, que já esbarra na marca dos primeiros doze meses, anuncia luz para aqueles excluídos, versão elétrica de outras promessas já feitas e até agora perdidas no emaranhado de discussões estéreis, às quais o povo assiste sem entender grande coisa. Devido ao quadro de incertezas vivido pelo setor elétrico, recém saído de uma crise que encostou os consumidores na parede, retirando-lhes o direito de consumo e cobrando pelo não consumido, o empenho de palavra pelo governo chega a ser temerário. Segundo analistas, o tão desejado e reclamado crescimento econômico não teria sustentação no setor elétrico, mais por incapacidade na transmissão do que por produção insuficiente. E assim sendo, é difícil crer que as lamparinas sejam aposentadas no tempo previsto pelo presidente, aceitando-se, mais provável, ser outra promessa a cair no vazio com conseqüente prolongamento da escuridão para os "sem luz".

E o assunto "luz para os pobres" serve de gancho para outra abordagem, deixada de lado por falta de espaço, há duas semanas, quando então fiz comentários sobre palavras e expressões em desacordo com o que queremos dizer. Solta-se o "a luz se apagou" ou "a luz se acendeu", ou ainda uma das variações no plural, sem que se dê conta da impropriedade contida na expressão. Na verdade, luz não se acende e não se apaga. Luz é sempre luz, de maior ou menor intensidade, de acordo com a natureza do seu meio de manifestação, não podendo "estar apagada" e ser redundância dizer "está acesa". O "estar acesa" é condição inerente à sua natureza E é esse meio de manifestação, podendo ser a lâmpada elétrica, a vela, o lampião, etc., que se acende ou se apaga, ao manifestar ou deixar de manifestar a luz. E como, pode-se dizer, a luz está para o plano físico assim como a alma está para o plano espiritual, também há erro quando se fala em morte de Fulano. Na verdade, o que morre é o corpo do Fulano. Assim como a luz necessita de um instrumento para se manifestar, a alma se vale do corpo enquanto este está em condições de uso.

De volta à promessa governamental, segundo a qual o "Luz para Todos" vai resgatar da escuridão mais de doze milhões de brasileiros, embora se fale em novo colapso por falte de investimentos em produção e distribuição, considerando ainda que o programa anunciado consumirá sete bilhões de reais, é bom lembrar que o contingente a ser beneficiado, provavelmente, padece de outras carências materiais. A promessa alimenta uma expectativa que pode desaguar em frustração, no momento em que entrar a burocracia com assinatura de convênios que envolverão a estatal do setor e prefeituras. E a falta de luz elétrica ainda se prolongará no tempo, porque falta aos governantes a percepção do todo na avaliação de cada necessidade do povo. Providos de tudo, falta-lhes, entretanto, outro tipo de luz; ou não estariam a dar "trombadas" a cada movimento que fazem no "escuro" de Brasília!

nbatista@uai.com.br

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