PONTO DE VISTA DO BATISTA

Mágoas do passado

Passadas as celebrações relativas à Semana da Inconfidência, oportunas se fazem algumas considerações sobre o que incomoda à população cachoeirense, mas nem sempre é abordado publicamente com o propósito de aclarar os sentimentos, debater o assunto que machuca a comunidade e buscar a eliminação das causas. O assunto fica circunscrito a pequenos círculos, onde é remoído constantemente, dando chances ao surgimento de novas feridas no orgulho da comunidade, que não quer outra coisa senão o reconhecimento de sua identidade histórica e cultural dentro da comunidade maior que é a ouropretana, considerado todo o município.

Inserida – ano passado - no itinerário percorrido pelo Fogo Simbólico desde a cidade de Tiradentes até Ouro Preto, Cachoeira do Campo participou pela segunda vez em cinqüenta e dois anos das referidas celebrações, iniciadas pelo então governador Juscelino Kubitstchek. Com isso, idealistas que integram a Associação Cultural Amigos de Cachoeira do Campo, dão início à correção de uma injustiça, ou seja, a escamoteação do distrito das referências históricas, em benefício único de Ouro Preto.

Cachoeira do Campo surgiu praticamente à mesma época que Vila Rica, servindo primeiramente como centro produtor de alimentos que o solo aurífero não fornecia aos mineradores. Da fome que grassou nos primórdios da cidade ficou registrado apelo do governante cujo decreto mandou confiscar parte do que se produzia nas comunidades agrícolas mais próximas. Mais tarde, o clima favorável e a proteção estratégica devem ter levado o governador da capitania a edificar, para maior comodidade sua e de sua família, o que foi conhecido como "palácio da Cachoeira", guarnecido pela maior fortaleza militar que se conheceu àquela época, em solo das Minas Gerais. O fato de o governador passar a residir longe do centro de governo deve ter ativado a chama da antipatia da população de Vila Rica contra Cachoeira do Campo. Antes disso, entretanto, em 1708, houve a derrota dos paulistas de Vila Rica para os emboabas, cujo "governador" para as Gerais chegou a ser sagrado na primitiva ermida de Nossa Senhora de Nazareth, depois de encarniçada batalha travada nas ruas locais e na região do Jardim (onde estão atualmente o Oratório D. Bosco, a Santa Cruz Transportes e a Ouro Minas); mais tarde, em 1720, frustrada a revolta que custou a vida de Felipe dos Santos, preso na praça que hoje tem seu nome, quis o governo português construir a Casa da Moeda (fundição de ouro) em Cachoeira, o que não agradou à população de Vila Rica, que deveria contribuir para tal empreendimento. Cachoeira perdeu a Casa da Moeda e Vila Rica continuou como capital porque enquanto si discutia o assunto, o conde de Assumar foi substituído no governo da capitania por D. Lourenço de Almeida. Mas, o caldo entornou mesmo contra Cachoeira foi na traição de Joaquim Silvério dos Reis aos companheiros da Conjuração (erroneamente dita Inconfidência) Mineira. Como o governador residisse em Cachoeira e aqui o traidor fez a denúncia, Cachoeira do Campo ficou com o ônus da culpa coletiva, que parece não ter sido esquecida até hoje. Cachoeira do Campo é simplesmente apagada da história de Ouro Preto, como se não existisse. E a mídia faz o mesmo ainda agora. Na matéria (veiculada neste jornal) relativa às solenidades da Semana da Inconfidência, embora dois eventos se realizassem no município de Ouro Preto, a prefeitura só informou sobre a programação da cidade, como se nada acontecesse em Cachoeira do Campo.

Passada a festa, conveniente se torna informar à assessoria de comunicação da prefeitura que, excetuando-se Ouro Preto, Cachoeira do Campo foi onde a passagem do Fogo Simbólico contou com a maior participação popular. Seria bom que enquanto reavaliasse suas mentalidade e política narcisistas (enamorado da própria imagem), o ouropretano fizesse uma faxina no seu subconsciente, eliminando antigas mágoas.

nbatista@uai.com.br

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