Assustam-se
autoridades com dados estatísticos relativos ao consumo do crack, em
todo Brasil, com graves consequências, de todos os aspectos, para a
sociedade, de modo geral. Não se sabe por que a surpresa quanto ao
avanço do crack, verdadeira praga que, além das capitais, onde se
trava a guerra contra as grandes organizações criminosas
responsáveis por sua disseminação, chega aos pontos mais distantes
do país, corrompendo a malha social das pequenas comunidades. E,
pior, por sedução da juventude, até mesmo da infância, créditos com
que conta a nação para seu futuro.
Só não viu, não
leu e não ouviu advertências sobre o surgimento do crack quem não
quis. Desde o início, sabia-se que a droga seria de fácil
disseminação neste país carente de tudo, especialmente entre jovens,
àquela altura, já dissociados da autoridade doméstica; sabia-se do
seu poder de criação da dependência química, em níveis extremos, a
ponto de o viciado desprezar a vida. Especialistas, ao comparar o
crack com outras drogas conhecidas, discorreram sobre seu poder,
incrivelmente, devastador sobre o organismo humano e previram o que
poderia acontecer com seus usuários. A imprensa, por sua vez,
divulgou as informações ao grande público e alertou as autoridades
sobre o novo perigo a rondar a sociedade. Os que deveriam sair à
frente, na luta contra a nova ameaça, fizeram ouvidos de mercador,
fingiram não ter visto e, se leram, não deram importância ao
escrito. Estavam ocupados demais com eleições, pois, embora se
realizem de dois em dois anos, em esferas diferentes, a eleição
seguinte já toma o tempo de políticos, tão logo se desligam as urnas
do pleito mais recente. Logo após os resultados, em defesa de um
lugar no poder, ou à sua sombra, pode ser até que recentes
arquiadversários, à vista do povo, já estejam de mãos dadas em busca
dos votos quatro anos mais tarde. Diante dos interesses nacionais e
necessidades da população, conjuminâncias político-eleitoreiras são
mais importantes e não cedem lugar nas discussões em torno de quem,
como e quando deve ter o controle do poder. Da mesma forma, porém
sob diferente ângulo, os que vivem do comércio de entorpecentes não
veem, à sua frente, outro interesse que não o dinheiro, contra tudo
e contra todos, não lhes importando a lei e muito menos a ética.
O crack não
chegou de surpresa ou criou seu mercado de uma só vez. Infiltrou-se,
sutilmente, como a erva daninha no cultivo da terra, sob os olhos
negligentes do agricultor que, aos poucos, deixa sua plantação ser
abafada pela praga. É nesse campo propício, descuidado pelas
autoridades, que empresários bem sucedidos afundam seus negócios,
perdendo-se antes sua dignidade, o respeito dentro da família e do
círculo social, afetando a todos em seu entorno. Também a mulher, de
classe média, dispõe de todos seus bens móveis, para investir no
sustento do vício, só não perdendo a mansão em que mora, impedida
legalmente de vendê-la na condição de mãe de menina adolescente. E
aqui, se mostra a ironia do destino e da situação. A menina de
quatorze anos, a mais provável vítima sob a avaliação, não só dos
traficantes como também de especialistas do comportamento humano, é
que luta e parte em busca de todos os recursos, para salvar sua mãe
das garras do vício. Exemplo do efeito cruel do crack entre as
crianças se fez, recentemente, quando a necessidade da droga falou
acima de todos os pensamentos e sonhos que povoam a mente de um
menino de treze anos. Sem como adquirir a droga e contrariado pela
mãe que lhe nega dinheiro para tal fim, ele se lança, de facão em
punho, contra ela; só não a mata porque é contido a tempo por
terceiros. Ao contrário do que, talvez, imaginassem os detentores do
poder, o crack não envolve tão somente a população marginalizada,
abandonada à própria sorte e poder dos narcotraficantes. Ele domina
a todos, independente da classe social, bastando haver a primeira
ocasião.
O crack, em
nenhum momento de sua cruel história, assim como nenhuma outra
droga, é associado ao trabalho, classificado como estimulante ao
trabalhador, aumentando-lhe a produtividade. Soa, portanto, muito
estranha a informação de que usineiros, no interior de São Paulo
estariam a induzir cortadores de cana ao uso crack, para que possam
prolongar a jornada de trabalho. Políticos receberam as denúncias,
durante visita a diversos municípios paulistas, mas não as
comprovaram antes de levar o assunto à discussão. Sob circunstâncias
semelhantes, a mesma informação e, curiosamente, na mesma data, vem
do interior de Alagoas. Pergunta-se que empresário é,
suficientemente, louco para estimular o uso ou distribuir crack
entre seus trabalhadores, sabendo-se (e isso é reconhecido pelos que
acolheram as denúncias) que, de acordo com especialistas,