Maria Fumaça e
Conjuração Mineira
Novamente voltamos a
tratar do desvio de significado de palavras ou do emprego delas com
sentido, às vezes, totalmente oposto ao verdadeiro conceito. O
assunto é vasto, suficiente para manter esta coluna durante bom
tempo, só não se fazendo isso porque ficaria monótono e cansativo.
Como qualquer outra manifestação, palavras surgem e desaparecem,
servindo à comunicação em momentos específicos da história humana,
enquanto outras perduram por todo o sempre da língua, sujeitas às
naturais transformações ao longo do tempo. Contudo, nem sempre as
transformações no seu uso se pautam pelo natural, imperando aí boa
dose de manipulação, a exemplo do que se detecta em relação ao
conceito da palavra violência, abordado aqui na edição anterior.
O que me fez persistir no
mesmo tema foi algo no reino das coincidências, ou ligado à
telepatia, como diriam outros, acontecido durante a inauguração do
trem turístico Ouro Preto/Mariana. É interessante como coisas, do
fundo da memória coletiva, vêm à tona, e, de repente, espocam no ar
como que a despertar a atenção para algo adormecido.
Depois da surpresa do
reencontro, entre este escriba e amigo jornalista, também
companheiro em música, dentro do veículo que nos levou até Mariana,
o pouco tempo foi aproveitado para a troca de algumas informações,
antes do embarque no trem da Maria Fumaça. Ao mesmo tempo
assistíamos demonstração do equipamento de multimídia, na estação
marianense. Foi ao ler referência ao movimento liderado por
Tiradentes, que expus a ele minha discordância em relação ao termo
"inconfidência" aplicado ao histórico episódio, opinião aqui já
exposta outras vezes. Entendo que "inconfidência" seria do ponto de
vista português, o colonizador que se via traído nas idéias
preconizadas pelos integrantes do movimento. Antes da luta aberta,
segredo absoluto se impunha entre os participantes e a troca de
informações entre eles se fazia sob forma confidencial, isto é,
restritas ao grupo. Na verdade, era uma conjuração (conspiração) em
prol da liberdade e rompimento dos vínculos com Portugal. Os
participantes, enquanto fiéis ao juramento de não revelar o segredo,
seriam confidentes. Do ponto de vista brasileiro, só houve um
inconfidente, Joaquim Silvério dos Reis, que traiu seus
companheiros, revelando o segredo com o propósito de, com isso,
obter o perdão da pesada dívida que tinha junto à coroa portuguesa.
Resumindo: "confidência" significa compartilhamento de segredo entre
duas ou mais pessoas e "inconfidência" é justamente o oposto, ou
seja, o rompimento desse segredo por alguém. E foi o que fez Joaquim
Silvério dos Reis.
Até início dos anos 50, os
livros didáticos davam ao movimento a denominação de Conjuração
Mineira, perfeitamente de acordo com sua natureza de combate, em
segredo, ao jugo colonizador. Depois disso, houve a substituição por
Inconfidência, sem que se explicasse a razão. Mas, há resistências.
O próprio "Aurélio" (versão eletrônica) diz que o termo é impróprio
para o caso.
Nossa conversa ali se
encerrou com a chegada do presidente Lula e o nosso embarque,
juntamente com a comitiva oficial, para a viagem inaugural do trem.
Encerrou-se a conversa, mas o tema continuou no ar, e isso fomos
constatar durante o ato final da inauguração, em Ouro Preto. O
próprio presidente da República, ao se referir à "Inconfidência
Mineira", em sua fala, fez a mesma observação, dizendo que o termo
"inconfidência" estaria correto sob o ponto de vista português e
que, para os brasileiros, somente Joaquim Silvério dos Reis teria
sido inconfidente. Coincidência?