PONTO DE VISTA DO BATISTA

Cai a máscara do astronauta tupiniquim

"Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, da mesma forma que ficaria, se fosse levada uma montanha, a casa de teu amigo, ou mesmo a tua; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procures saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti". Nesta pequena amostra de sua obra, John Donne, poeta inglês do século XVI, demonstra a condição do homem no esquema universal, não importando sua condição social ou capacidade intelectual, pois somos todos interdependentes. Do mais sábio ao mais ignorante, do mais poderoso ao mais submisso, do mais rico ao maior miserável, uma linha invisível nos liga a todos, de modo que nenhum fato é circunscrito à vida de um único indivíduo, atingindo outros mais dentro do seu círculo e se expandindo para além, na proporção de seu impacto inicial. As epidemias estão aí para comprovar. Do nascimento, que depende do encontro prévio de duas pessoas, à morte, da qual, diretamente ou indiretamente, outros participam, o indivíduo não vive somente a sua, mas também outras vidas, que não são suas, mas estão consigo ligadas, nos muitos momentos, circunstâncias e várias formas de convivência. E num mundo transformado em grande aldeia por força da crescente interação nas atividades humanas, um paradoxo se revela: à medida que a evolução do homem como ser criativo mais depende do trabalho de equipe, desenvolve-se ânsia individualista à custa de todo o grupo ao qual está ligado no processo de aprendizagem e desenvolvimento. A busca pelo vôo solo e o estrelato na atividade, movida pela vaidade, ânsia de celebridade ou simplesmente dinheiro tem provocado a quebra da lealdade, fator indispensável entre pessoas associadas em torno de objetivos comuns. Cada vez mais pessoas chutam o balde, para não dizer parceiros, amigos e companheiros com os quais se aprimoraram, traçando e queimando etapas na busca de metas previamente escolhidas. Além do vazio que abrem na equipe, apropriam e levam para uso e proveito próprio resultados pertencentes ao grupo ou à coletividade. O estrago provocado por tal comportamento ultrapassa a simples frustração, pondo em risco a validade de projetos cujos resultados se creditam a futuro ainda distante. Durante cerca de sete anos brasileiros aguardaram a viagem de seu primeiro astronauta, torcendo para que o treinamento do escolhido evoluísse normalmente até a arrancada do foguete ao espaço e, de lá, voltasse o mesmo na condição de pioneiro bem sucedido em nossa primeira excursão rumo às estrelas. Alguns milhões de reais, que ácidos críticos consideram extravagância desnecessária, foram gastos no projeto, válido, sim, pelo que representa em conquista científica e tecnológica, que não deve ser descurada enquanto se busca o pão. Num misto frenesi de orgulho patriótico e pueril, segundo o dito "quem nunca comeu melado, quando come se lambuza", todo o país acompanhou, de "beiço caído", "nossa" primeira viagem ao espaço, rendendo homenagens ao pioneiro. Cumprida a missão, recebidas as honras pelo feito, menos de um mês depois, o astronauta tupiniquim surpreende a comunidade nacional com desejo manifesto em se aposentar. Bastou receber os louros para mandar também para o espaço ética e lealdade, princípios que norteiam instituições militares, talvez não bem assimilados por ele, que transformou em simples passeio pessoal o que era o principio de jornada para o Brasil!

nbatista@uai.com.br

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