PONTO DE VISTA DO BATISTA

Mataram a lua!...

Recordar é viver! Em letra, já disse samba no tempo em que carnaval deixava saudades! Sob clima de tanto desgaste político e corrupção em todos os níveis da vida pública brasileira, vêm a calhar as comemorações em torno do cinqüentenário da posse de JK na presidência da República. Não que governos àquela época fossem constituídos de anjos, livres de corrupção, ou que tenha tomado posse naquele 31 de janeiro de 1956 o salvador da pátria, mas, porque havia um elo de perfeita correspondência entre ele e o povo, fundido ao longo de sua vida pública com realizações, que respondiam aos anseios da coletividade. Na prefeitura da capital e no governo de Minas, o pulso de sua administração inaugurou processo de desenvolvimento, que a comunidade nacional aspirava para todo o país. Combatido a ponto de jornal ter sido criado com o objetivo de fazer-lhe ferrenha oposição no governo de Minas, JK a tudo respondia com espírito de tolerância, enquanto obras mudavam a face do estado.

Fazia sentido, portanto, a euforia popular, principalmente em Minas, pela posse daquele cidadão ousado nas idéias, competente na gerência e entusiasta no mesmo diapasão do povo. Cachoeira do Campo, àquela época, um cafundó só não esquecido por Deus, também tinha motivos para celebrar a chegada de Juscelino ao Palácio do Catete.

A nova estrada Ouro Preto a Belo Horizonte, inaugurada por ele no dia 21 de abril de 1953, havia eliminado deslocamento até a Estação D. Bosco, para viagem de trem, e da dependência da única jardineira que descia para Belo Horizonte na segunda-feira e de lá voltava no sábado, por estradinha que mais parecia caminho de cabrito. A nova era também de terra, cascalhada e poeirenta, porém um pouco mais larga e traçado mais curto, o que reduzia a viajem de mais de seis horas para algo em torno de quatro. A satisfação era tão grande que a população bloqueou a estrada no momento da passagem, forçando o governador a descer do carro para acolher a manifestação popular. Mais ou menos em frente onde está o Posto Painha, Jk, em discurso, saudou o povo e agradeceu pela manifestação espontânea.

Menos de três anos depois era alçado à presidência da República! Do mesmo modo que todo malfeito político termina em pizza, em Cachoeira, àquela época, todo acontecimento importante terminava em música. Assim sendo, grupo de músicos, vigiado pela lua cheia, saiu a realizar nas ruas uma serenata, entretenimento entre os preferidos do novo presidente. Já ia "noite alta, céu risonho..." e chegava ao fim o improvisado musical, ao gosto de Cândido das Neves e Vicente Celestino - para alegria de seresteiros como Juscelino - quando veio o diabo e cuspiu em cima. Entre alguns acompanhantes do grupo, um rapaz soltava foguetes. Por descuido, azar, ou sei lá o quê, uma daquelas malditas bombas subiu, desceu e estourou na janela de destacado cidadão da comunidade, coincidentemente, até então, filiado à UDN, partido que fazia aguerrida oposição a Juscelino. Em seqüência, saiu ao jardim o dono da casa, encolerizado; e, rebrilhando ao luar, podia-se ver em suas mãos um "berro 38". Enquanto o homem gesticulava e vociferava ameaças, cada um tratou de se esconder, pois brigar ou tomar tiro eram coisas que ninguém queria. Descontado o uso de arma, ele tinha razão porque foguete é séria ameaça à segurança, e, tê-lo estourando junto à própria janela mexe com os nervos, mas o grupo musical não tinha culpa. Em dado momento, prometeu que um dia acabaria com aqueles "violõezinhos" (e o grupo não se compunha só de violões) nas ruas. Em resposta, recebeu sonora vaia!

Mais agitado ele ficou e um disparo fez para o alto. Foi quando um gaiato (sempre há um por perto) saiu-se com esta: MATARAM A LUA...! Em meio à gargalhada geral o episódio se encerrou e, alguns anos mais tarde, o autor do tiro se tornou prefeito de Ouro Preto.

nbatista@uai.com.br

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